Publicado em Espaço Waikayu, Produção de alimentos, Zona 3 - cultivos em escala

O trabalho das ovelhas

No design cada elemento deve cumprir pelo menos 3 funções, e ter suas necessidades supridas por mais de uma fonte. Este exercício de fazer conexões se chama análise dos elementos, uma das tarefas que compõem o design da propriedade, e que deve ser feito cada vez que se pensa em introduzir um novo elemento no projeto.  A análise de elementos inclui estruturas, plantas, cultivos e obviamente, animais.

Animais são fundamentais num design, desde fauna nativa, como animais domesticados, ao longo da história da humanidade. Eles polinizam, adubam, roçam, dão alimentos, etc. Um permacultor também entende a função dos animais como conexões das zonas. Na foto abaixo vacas pastando sob o parreiral no sítio Raízes,

Como muitos permacultores tem origem urbana, o capítulo “animais” é sempre um desafio, já que nos expõe à nossa ignorância, aos nossos medos e à questão da responsabilidade frente a outro ser vivo, com decisões de vida e morte.  Animais felizes são os que fazem o que nasceram para fazer, e aí nos incluo.  Tratá-los com respeito e atenção, nos ensina mais de nós mesmos do que dele.

Demoramos para introduzir novos animais em Waikayu, embora estivessem contemplados no design desde os primeiros rabiscos. Nas zonas 3 de pastagens, as vacas estiveram presentes desde o primeiro dia. Mas nas áreas das bracatingas e eucaliptos, neste 4 anos, deixamos as árvores crescer e a roçadeira fez o papel que seria dos animais- mantendo as pastagens nativas. Na foto abaixo, a pastagem sob as bracatingas.

Então, finalmente, fizemos a tarefa estudamos, pesquisamos e decidimos pela introdução das ovelhas. Abaixo, o registro da nossa análise dos elementos.

Para testar o nosso convívio e irmos aprendendo, introduzimos primeiro duas, e logo depois de dois meses, outras duas ovelhas (um macho e três fêmeas). No primeiro mês o pasto não deu sinais de esgotamento, ou seja, sobrava comida. Então repartimos a área em 3 piquetes, de aproximadamente dois mil metros quadrados.

Com esta divisão, as ovelhas estão ficando aproximadamente 15 dias em cada piquete, divididos com cercas elétricas. Agora, finalmente, a função roçar e aproveitar a pastagem sob as árvores está acontecendo como manda o figurino. Os animais são mudados de piquete quando a pastagem fica baixa, como na foto abaixo.

Outra função que vem acontecendo e nos surpreendendo por não ter mau cheiro, e nem atrair moscas, é a adubação. As fezes das ovelhas são bastante secas e como são bolinhas, se espalham facilmente. Temos planos futuros de recolhê-las para uso nas frutíferas, mas neste momento, seguimos alimentando os solos e aŕvores madeireiras com elas.

Agora, finalmente, relatamos a relação das ovelhas com os humanos. Nossas  ovelhas vieram de 3 criadores diferentes, e apenas Shaum, o macho, tinha mais proximidade com humanos. Na primeira hora aqui Shaum e Menina, fugiram da cerca elétrica e passaram a noite no mato. Ao amanhecer parecia que nos chamavam e vinham sempre para a porteira da casa. Prendemos os cachorros afastados e devagar , com Jorge chamando com um “Méeeee” , levou-os de volta para o piquete. Fizemos uma coberta e um cocho, e todas as tardes colocávamos um punhado de milho. Mas durante uns 20 dias, eles não vieram. Apenas pastavam longe das nossas vistas. Devagar começaram a se aproximar e hoje, basta aparecermos que eles vem correndo.

A proximidade do cercado das ovelhas também teve sua análise de elementos: abrigar os animais do frio e umidade, local para facilitar os cuidados em caso de machucados, partos, etc, proximidade com a casa, tendo a possibilidade de luz  noite, abertura para os 3 piquetes, assim podemos trocar os animais sem estresse- basta fechar uma porteira e abrir a outra enquanto eles comem milho.

Embora os animais tenham origens distintas, todos os 4 gostam da proximidade com os humanos, o que transparece na rotina:  pastam do amanhecer até às dez. Ai vem para o cercadinho (que fica aberto) e descansam até umas 15h. Aí saem para pastar, e reaparecem chamando no fim da tarde para ganhar milho. Depois do milho pastam um pouco mais e depois vem para o cercado novamente.

Grande aprendizado este de ter ovelhas. Nestes 4 meses, desmistificamos muitos medos e preocupações que tínhamos como novos rurais.

Anúncios

Autor:

Um casal de permacultores participantes de um projeto coletivo, construindo sua casa, seu espaço e a sustentabilidade..

8 comentários em “O trabalho das ovelhas

  1. Lindo seu convivo com as doceis ovelhas.Quando menino,la na Polônia,uma das minhas tarefas era cuidar dos animais domésticos inclusive das ovelhas.Confesso que não era tarefa fácil nem agradável.Nenhum animal gostava de mim,por eu não gostar deles.Lembro dos cavalos que mordiam me na cabeça apesar de ter lhes dado a ração e o macho das ovelhas corria atras de mim.Tudo isso porque eu batia neles por eu ser ignorante,desconhecendo que animal responde delicadeza com “delicadeza”.Levei um tempão aprendendo. Hoje já idoso(73) me envergonho disso.Quem pretende lidar com os animais tem de aprender isso e o quanto antes. Mas,querido Ivy,a vida no sitio permaculturl deve ser maravilha gratificante imagino eu.Por tudo isso você está de parabéns.Peço desculpas por ter me alongado no comentário.Por favor,receba abraço fraternal.

    1. Oi, Miecislau
      Obrigado pelo depoimento e carinho.
      Sim, com o tempo e a prática todos aprendemos que lidar com a natureza é ser amoroso.
      Não se envergonhe… o aprendizado é um processo e para isso deve passar o tempo.
      Todo vamos aprendendo no dia a dia na lida e na troca com os parceiros. Eu também tenho a minha idade, hoje nos quase 70 anos.
      Grande abraço.
      Jorge

    1. Oi, Emerson
      É assim mesmo, o objetivo principal da introdução das ovelhas é o roçado dos pastos é a adubação com o esterco.
      Assim melhoramos as pastagens e adubamos o solo sem ter que usar combustíveis fósseis nem adubos químicos.
      A associação se chama manejo agrosilvopastoril. Produzir alimento e ou suprimentos humanos (vegetal e animal) cultivando debaixo da copa das árvores; sejam frutíferas, florestais ou que produzam recursos industriais.

  2. Que incrível encontrar esse espaço com essa experiência toda aqui compartilhada. Meu marido e eu temos o sonho de ter um cantinho baseado na permacultura. Ainda temos muito aprendizado pela frente.
    Enquanto isso, seguimos aprendendo…. Gratidão por compartilhar!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s