Árvores e sustentabilidade

Muitas vezes nos perguntam sobre o que a permacultura acha das agroflorestas, e do cultivo com árvores. E a resposta é sempre: não existe sustentabilidade sem árvores, todo e qualquer manejo, desenho, projeto, só funciona com árvores, muitas árvores.

Todas as culturas e impérios que acabaram com suas florestas, acabam sucumbindo, quem não se lembra das aulas de história sobre a mesopotâmia, o vale rico entre o Tigre e Eufrates? Primeiro grande desastre antrópico, de fim das florestas e salinização dos solos por irrigação?

Pois então… A permacultura, quando de sua origem, tem dois pais, David Holmgren e Bill Mollison. David Holmgren, um grande e meticuloso estudioso, cita algumas das suas bases de estudo para a permacultura , Howard  e Eugene Odun com as questões relativas à organização dos sistemas ( energia, economia e ecologia),  Yeomans com a linha chave, Fukuoka com a agricultura natural. Ao propor o Design em permacultura, trazendo o projeto de sistemas humanos sustentáveis,  David e Bill bebem destas fontes, e no design, as árvores tem papel principal.

A agroecologia é a produção de alimentos usando a ecologia como base, modelo e princípios. Ainda que mudem e inventem nomes e nomes, onde a necessidade de cunhar o “novo” toma fôlego, a agricultura com árvores e usando a favor a energia dos sistemas já é algo falado e refalado, seja pelos irmãos Odum, por Gliessman, Fukuoka e tantos outros como Ernst Götsch.  Sem árvores, não há vida! Não há agricultura.

Nos projetos de Yvy Porã e  Waikayu, o elemento árvore aparece de diversas maneiras, como na restauração da mata nativa, no plantio de espécies comestíveis, perenes e de espécies madeireiras. Na postagem de hoje, vamos falar sobre o manejo de espécies madeireiras.

Estas árvores requerem cuidados e manejos, como a roçada das pastagens no verão, enquanto são pequenas e os animais não podem entrar para pastar entre elas. E algumas podas de inverno dos galhos baixos, durante os primeiros anos de crescimento. Algumas delas, por distintos fatores, podem crescer muito “desordenadamente”, o que determina o uso para lenha ou para madeiras para construção (tábuas, caibros, etc).

Em Waikayu temos talhões, de mais ou menos um hectare cada um, de diferentes espécies madeireiras, como bracatingas, eucaliptos e pinus que nasceram espontaneamente.  O mais antigo, com quatro anos, é de eucaliptos Dunii e Bentami, espécies de madeira vermelha, dura, resistentes ao frio,   usadas para construção.

Estas plantas, agora com 4 anos , e algumas que precisaram ser repostas, com dois anos, estão indo muito bem, como mostra a foto acima (em primeiro plano as plantas com dois anos, atrás a grande, com 4 anos). E agora,  neste inverno, tiveram a poda dos galhos baixos. Na foto abaixo, as mesmas três plantas depois da poda.

Esta poda produz  um fuste mais reto, e permite maior entrada de luz, deixando assim, que a pastagem nativa cresça e que possamos ter animais de pequeno ou médio porte pastando entre as árvores. Assim, de serrote e tesoura de poda em punho, o trabalho começou, na lua minguando, no início de agosto (meses sem R) e deve seguir por alguns dias.

O bosque vai se abrindo e a poda fica no chão, para se decompor e alimentar o solo. Depois do primeiro dia de trabalho, a entrada de luz já é bem significativa, como mostra a foto abaixo.

 

 

 

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Saber “cientificamente comprovado”

 

Na postagem de hoje, mais uma reflexão do Jorge Timmermann, sobre o cientificismo da sociedade em que vivemos.

Muitas vezes, seja em conversas informais, em cursos, ou mesmo por mail e aqui no blog, me deparo com a seguinte pergunta:

“Entendo o que o senhor disse, porém, poderia tirar uma dúvida? Tem como provar cientificamente que a melhor época do ano, para poda, corta de árvores ou manejo de bambu, seria no inverno quando há menos atividade e circulação de seiva. É que estou fazendo um trabalho, ou pesquisa, ou TCC, Mestrado ou Doutorado, sobre o assunto.”

Esta questão do conhecimento que é “cientificamente comprovado” é alimentado pelo paradigma social, urbano e acadêmico que propicia que o único conhecimento validado é aquele que se gera nas universidades pelos autodenominados cientistas e pesquisadores.
Logo de uma vasta atuação acadêmica e de pesquisa de campo (de 1970-2018) cheguei à conclusão de que é arrogância demais achar que só se sabe no seio da academia.
O conhecimento se gera em todo lugar e a toda hora pelo simples acúmulo de experiência (dados) advindas das observações e ações feitas com intenção; que alias, é o primeiro passo do método científico.
Logo, analisar os dados obtidos com intenção (quer dizer: obtidos tendo um modelo descritivo dos fatos a acontecer) e transformá-los em informação é só um passo metodológico que pode ser realizado numa nova fase empírica do processo de produção de conhecimento auto gerenciado que foi promovido por Descartes, e amplamente difundido no meio acadêmico (não sempre muito explícito nem bem conhecido pelos próprios pesquisadores), como o Método Científico.
Nesta fase, logo de gerada a hipótese correspondente, a confrontação dos dados/informação obtidos (que geram um modelo operacional que dará resposta à hipótese) poderão ser modelados em base estatística (previa definição do universo de amostra e a validade da amostra mínima para este universo em referência ao evento a comprovar).
Mas, veja bem, o método de Descartes não faz mais que relatar em forma de “Método” a forma em que sabemos; a nossa capacidade de aquisição de conhecimento, no caso auto gestado, o que fazemos nós os seres humanos.
Toda pessoa que pensa e processa informação (teoria do conhecimento/epistemologia) passa espontaneamente pelos passos do método científico.

Então, o único a discutir é a universalidade de este saber.

Sim, o conhecimento/saber obtido empiricamente por gerações e gerações num determinado lugar é válido só no contexto gerado….
Só que, a resposta a essa pergunta do saber respeito à melhor época de corta e manejo de madeiras é de difusão e consenso mundial!!!!
Todas as culturas vernáculas relacionam o manejo de espécies vegetais (plantação, corta, poda, etc.) a épocas do ano e a fases da lua.
Será que nenhuma delas sabe do que está falando, ou o que estão fazendo?
Deveremos perguntar e promover pesquisas nas universidades para que validem ou neguem esse saber?

A química do processo de produção de Biodiesel

Cumprindo com o prometido na postagem anterior, que discute, energias:  uso e produção ,   a publicação de hoje traz a informação teórica que complementa o oferecido no post da “Produção caseira de Biodiesel”.

A ideia é que quem queira incursionar no processo químico que acontece, possa visualizá-lo e compreendê-lo na sua complexidade. Assim, cada um pode seguir seu estudo, tendo ciência  completa dos passos. Que cada experiência feita, leve à autonomia, e com o estudo, possa  ajustar ou melhorar o processo.

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Produção caseira de Biodiesel

A recente greve dos caminhoneiros no Brasil nos remete à  pergunta sobre energia, e nosso modo de viver baseado e dependente do petróleo. Coincidentemente, este estudo sobre fontes de energia estava “no forno”,  esperando para ser revisado e publicado. Sincronicidade, ou realmente uma reflexão mais do que urgente!

Muitas vezes discutimos  questões que tem a ver com o consumo de energia e/ou as formas de ser mais autônomo em energia. Isto está diretamente conectado com o contexto e as pessoas envolvidas. Diversas estratégias podem ser desenvolvidas.

Costumamos dizer que existem três caminhos troncais e talvez infinidade de outros a serem trilhados. Os caminhos, a nosso entender são:

  • Diminuir o consumo de combustíveis e serviços ambientais.
  • Produzir trabalho a partir de recursos energéticos locais ou próximos.
  • Otimizar os sistemas de aproveitamento energético.

No primeiro encaminhamento estaria o repensar o uso e diminuir a demanda de energia, seja esta local ou provida por alguma empresa. Atualmente o melhor exemplo é a substituição das luzes por lâmpadas led.

O segundo se refere a todas as iniciativas de produção de combustíveis (sejam sólidos, líquidos ou gasosos), o aproveitamento das energia em fluxo na natureza (como vento, água corrente, energia solar radiante, etc.),  ou qualquer outra forma que nos ajude a cumprir as tarefas diárias.

No terceiro estão as ações que visam melhorar o sistema fazendo-o mais eficiente (exemplo os queimadores rocket que otimizam a combustão aumentando a temperatura e diminuindo o consumo de lenha) ou aproveitar os excedentes do trabalho, em geral calor, como uma fonte para gerar mais trabalho – pensemos em aproveitar o calor que se dissipa numa chaminé, para aquecer água ou para produzir energia elétrica, etc.

Nesta postagem estamos apresentando uma das formas de aproveitar recursos próximos para satisfazer a necessidade de combustível na propriedade. No caso o aproveitamento de óleo vegetal usado, nos comércios e nas casas, para produzir Biodiesel, com o aproveitamento posterior dos excedentes ou subprodutos.

Vamos a começar oferecendo um completo PowerPoint que, esperamos, provoque e encoraje à produção caseira de combustível; como assim também defina uma atitude de consciência ambiental, combativa e libertária frente ao atropelo e descaso dos grandes distribuidores de energia.

Na próxima postagem,  virão outras duas publicações. a primeira  para quem queira se aprofundar no embasamento químico da produção deste combustível. a segunda sobre o uso de um subproduto deste processo: a Glicerina.

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O grande medo ao terceiro princípio da permacultura

Nesta postagem, mais uma reflexão do Jorge Timmermann, sobre a ética da Permacultura.

A permacultura desde sua origem, na de David Holmgren e Bill Mollisonn, propõe suas ações em uma ética clara, objetiva e  francamente declarada. Sem dúvida  a ética da permacultura propõe muitas reflexões e base para ações concretas. Nestas reflexões, aparecem artigos e ponderações de permacultores ao redor do mundo.

Em referência ao artigo publicado como “The Controversial Third Ethic of Permaculture” no site do Permaculture Research Institute (PRI) da Austrália, e outras iniciativas de protelar o importante para discutir o espúrio,  como é o artigo “Cuidar do Futuro” do autor, Milton Dixon, publicado originalmente no site Permaculture Pruductions LLC, é que escrevo esta postagem.

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Discutir interpretações e oferecer diferentes orientações respeito ao referido terceiro princípio ético da permacultura é, no mínimo, uma perda de tempo… ou o que eu penso, uma forma de tirar o foco do que é fundamental para nos desgastarmos no que é supérfluo.

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VII Curso de Design em Permacultura de Yvy Porã

O Curso de Design em Permacultura, chamado PDC, é um curso basicamente teórico, que instrumentaliza as pessoas a pensarem o que fazer para construir sistemas humanos sustentáveis.

Mais uma vez, semana Santa é época de PDC em Yvy. Formar permacultores, na perspectiva proposta por Bill Mollison e David Holmgren.

Foram nove dias intensos, numa imersão de convivência, de estudo  e algumas práticas ilustrando o que discutimos em aula. Na foto abaixo o parceiro Gardel Silveira, do Sítio Curupira fazendo o composto com o grupo.

16 estudantes, 1 ajudante, três crianças, vivendo na Casa mãe, e numa semana especialmente chuvosa em Yvy foi de integração e descobertas. Na foto abaixo a prática de canteiros instantâneos.

O grupo fez a chuva virar alegria e certamente, nos apontaram o que significa um design para eventos extremos, como chuvas, secas, ventos, etc.

Faz parte do curso PDC o trabalho em grupo , para elaboração da proposta de design como conclusão do curso.

No final, mais um grupo de permacultores formados em Yvy. Sejam permacultores éticos, responsáveis e felizes Anna, Cassia, Claudia, Margô, Thalita, Joana, Sabrina, Fabiana, Bernardo, Shale, João, Thiago, Eduardo, Toninho, Andrew, Edmar e Carlos. Agradecemos sempre a parceria dos amigos Gardel Silveira do sítio Curupira e Arthur Nanni, do sítio Igatu,  nas aulas, O cuidado e apoio da Ilse na alimentação,  Diego na infra e Carlos Augusto no cotidiano.

Para quem perdeu, o próximo na semana Santa de 2019!

Bases para um Curso de Design em Permacultura

A Permacultura vem crescendo na sua divulgação, e isso é muito bom de ver, afinal, queremos mais e mais permacultores agindo pelo mundo.

Este crescimento traz também alguns problemas, como pessoas usando o termo, dando cursos, sem a devida formação. Um curso de design em Permacultura, chamado pela sigla PDC é a base da formação de um permacultor, e aqui mesmo neste blog já publicamos sobre a seriedade desta formação. Queremos contribuir cada vez mais neste processo.

Com a propagação de cursos sem o devido cuidado e estrutura, o “Cuidado com as pessoas” fica absolutamente em segundo plano, e começam a aparecer problemas que vão desde cursos superficiais até casos extremos de assédios. Há um ano foi publicado um documento chamado Manifesto dos Aprendizes de Permacultura. Este documento mobilizou, em cada permacultor, quais ações poderíamos fazer para melhorar o aprendizado e as vivências em permacultura.

Os permacultores mais experientes, com história no Brasil, Marsha Hanzi, Claudio Sanchotene Trindade, Jorge Timmermann, Suzana Maringoni, André Soares, Lucy Legan, Peter Webb, João Roquete, Marcelo Bueno,  Carlos Miller, Skye, Ivone Riquelme, Sérgio Pamplona, preocupados com os fatos citados, formaram um grupo virtual e conversaram.

O resultado, foi que este grupo aí escreveu e publica hoje em conjunto, cada um nas suas redes sociais , sites ou blogs, um documento denominado Bases para o Curso de Design em Permacultura.

Ficamos felizes em compartilhar tal produção, fruto da maturidade deste grupo de permacultores que atuam há anos na formação das novas gerações. Esperamos contribuir com a divulgação e o crescimento da permacultura de forma responsável e consistente.

Bases para um Curso de Design em Permacultura

Ecodesenvolvimento e Permacultura

Na postagem de hoje um artigo escrito por Jorge Timmermann, permacultor, biólogo, ecólogo, formado pela Universidade Nacional de Córdoba (Ar). Atuou como pesquisador e docente na  Universidad Nacional de Catamarca, Universidad Provincial de La Rioja. Também trabalhou como coordenador regional no Programa Nacional Algarrobo (desenvolvimento de áreas marginais), pesquisador e entomólogo no combate à doença de Chagas (Univ. Nacional de Córdoba), com participação no Serviço Nacional de Chagas (Gov. Argentino). Permacultor desde 1998, diplomado como Designer e instrutor de PDC por Bill Mollison em 2002. Participou da formação com David Holmgren para permacultores em 2007.Fundador do IPAB, da extinta Rede Brasileira de Permacultura, rede Permear, das estações de Permacultura de Yvy Porã e Waikayu em Santa Catarina.

 

 

Ecodesenvolvimento e Permacultura

Jorge Timmermann

O conceito Ecodesenvolvimento foi cunhado nos anos 70 como resposta ao marco polêmico que existia, entre os que queriam o desenvolvimento a qualquer preço e os ambientalistas. Isto acontecia na primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente em Estocolmo. Maurice Strong propôs este termo. Logo, foi ampliado pelo economista Ignacy Sachs, que o levou a outras dimensões: a econômica, a social, a cultural e a gestão participativa, além da preocupação com o meio ambiente.

Quando conheci a ecologia, nos idos anos 70, a questão fundamental a ser tratada, para resolver os problemas ambientais, era a diminuição imediata e/ou acabar com a “degradação ambiental” e a “poluição”. Estes dois conceitos eram cerne da questão ecológica. Toda a ciência ecológica, sua metodologia e ações eram orientadas a manter o mundo habitável, para nós e para as gerações futuras.

Com o passar dos últimos 50 anos, nunca deixou de me surpreender como os discursos vão mudando e as modas vão puxando os indivíduos para longe do objetivo principal (terminar com a degradação e a poluição) para levar-nos a infindáveis discussões, nos encaminhando para ações que, com muita sorte, serão meros paliativos ou simplesmente nos desorientam do que é realmente importante.

Na década de 1980 (em 1987), a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento – CMMAD, adotou o conceito de Desenvolvimento Sustentável em seu relatório Our Common Future (Nosso Futuro Comum). Nós, os ecólogos de campo, presenciamos estarrecidos como o establishment conseguia um novo triunfo negando o claro, comprometido e proativo conceito de ‘Ecodesenvolvimento” pelo moderno, estético, vago e obscuro “Desenvolvimento Sustentável”.

O que todos entendíamos como um compromisso irredutível, desde o ponto de vista ecológico, era como se deviam desenvolver os projetos ligados ao ambiente, sempre sustentados num tripé metodológico, com seu foco nas questões: ambientais, sociais e econômicas, definidas no Ecodesenvolvimento. Ou seja, com ações que priorizem a conservação ambiental (que reduzam a degradação e evitem a contaminação) que sejam socialmente justas (sem discriminação, segregação e igualando as oportunidades) economicamente viáveis (que gerem benefícios sem destruir o capital natural). Estes pontos claríssimos e inconfundíveis do Ecodesenvolvimento, transformou num obscuro justificar a sustentabilidade de um projeto pela simples sustentabilidade econômica, relegando a questão ambiental e social a um segundo plano ou esquecendo delas.

Passados os anos e salvando as distâncias observo como ainda não abordamos a questão principal com o devido cuidado. Continuamos desenvolvendo a nossa cultura, num contexto finito, provocando degradação e poluição

Fomos induzidos a acreditar que: “sempre os problemas foram criados por outros”. Que são as diferenças políticas, econômicas e/ou as duas juntas “o poder” que são os responsáveis pelo estado calamitoso da nossa gestão ambiental (ecossistemas e humanidade).

Falamos que o maior impacto ambiental (medido em porcentagem planetária de degradação de ecossistemas, perda de solos, erosão genética, etc.) foi provocado nos últimos duzentos anos. Então a culpa é da “revolução industrial”, da “revolução verde”… E se isto não for suficiente apelaremos a culpar os Impérios…

Estes cenários exemplificados, e muitos outros possíveis, são fatores concretos que levam, objetivamente, ao desfecho da crise ambiental; só que a situação atual requer de uma nova abordagem.

O nosso gênero, homo, vem transitando o planeta Terra há milhões de anos. Na sua passagem deixou um rastro permanente de degradação e/ou poluição, é só lembrar-se da salinização dos campos irrigados da mesopotâmia pelos Babilônios; a domesticação de espécies animais e vegetais que reduziu nossa dieta farta e variada a poucas variedades de espécies únicas, em prol da eficiência econômica ou diminuição de esforço com a consequente destruição e degradação de ecossistemas prístinos e criando assentamentos humanos massivos e altamente impactantes; etc.

Assim, o nosso impacto permanente e contínuo, foi se agudizando na medida em que o crescimento populacional acontecia. Há relativamente pouco tempo, algumas décadas, que somos conscientes dos “limites ao crescimento” (livro publicado pelo Club de Roma, 1972); então, já é hora de assumir esta nova realidade (que nossos antecessores não tinham) e começar a agir coerentemente com ela. Este agir é individual, intransferível e cotidiano.

Então, quando conheci à Permacultura (e lá se vão 20 anos), fiquei muito animado ao conhecer o contexto ideológico e ético da proposta da permacultura. Ela nos remete a esta ação individual, com responsabilidade e autonomia.

A sua ideologia é embasada na ecologia, e às vezes falamos que Permacultura é ecologia prática, proativa; seus princípios de ação e sua metodologia promovem, continuamente, a criação de uma cultura humana permanente.

Sua ética reflete fielmente a base do ecodesenvolvimento citadas neste texto.

O cuidado com a Terra e O cuidado com as pessoas responde ao imperativo de não degradar. Assim, nossas atividades de cunho puramente econômico, sem reconhecer o ambiente, e os indivíduos, só fazem tremer as bases ambientais, que são os ecossistemas e as pessoas que o habitam. A degradação dos ecossistemas conleva à degradação humana.

E o terceiro princípio ético, Limites ao consumo e à reprodução, e redistribuição dos excedentes? Considero a poluição ligada intimamente à quantidade, quer dizer: não é só a qualidade de um produto (veneno, adubo, etc.) ou de uma ação (despejar, não tratar, etc.) o que polui; é a quantidade deles que pode afetar de forma irreversível aos ecossistemas. Por isto a questão dos limites é tão clara e importante, nos remete à ações concretas, vivenciadas diariamente por todo e qualquer humano, esteja ele em que contexto estiver. Em relação à redistribuição dos excedentes, estamos frente a questão da igualdade de oportunidades e isto tem a ver com discriminação, exclusão, exploração, e todas as formas injustas de toma de poder.

Citei anteriormente meu entusiasmo, como ecólogo, ao conhecer a Permacultura. Esta alegria me contagiou e levou a abraçar esta ciência, filosofia e prática, por reconhecer que ela trazia respostas concretas à crise civilizatória que vivemos, e o mais interessante, ao alcance das mãos de qualquer pessoa. E o ponto que norteia toda a gama de ações da permacultura na sua concepção e na sua expressa declaração de princípios éticos, responde aos imperativos ecológicos declarados há décadas e nunca bem resolvidos: acabar com a “degradação ambiental” e a “poluição”.

A proposta de solução à crise dada pela permacultura, nos seus princípios éticos e princípios de design, pode reverter atitudes da cultura atual que priorizam o bem estar individual e o ter, que se define em prol de interesses mesquinhos.

Compreendamos o que David Holmgren e Bill Mollison pretenderam com o enunciado dos “Princípios Éticos da Permacultura”, eles propõem com clareza e concretude filtros de ações para que o homo sapiens consiga reverter o processo suicida da humanidade e construir uma cultura permanente; basta ter:

-Cuidado com a Terra

-Cuidado com as Pessoas

-Limites ao consumo e à procriação, e redistribuição dos excedentes.

Revista Permacultura Brasil

Os permacultores Suzana e Jorge vem participando do projeto PERMAFORUM, que quer ser um espaço de materiais para estudo de artigos, tese, etc sobre permacultura.
No permaforum, juntamente com Sérgio Pamplona, do sítio Nós na Teia,  estamos publicando a revista Permacultura Brasil, e achamos importante compartilhar aqui no blog de Yvy Porã tal iniciativa.
Abaixo o texto de divulgação da revista.
Estamos orgulhosos desta divulgação, semana a semana, e esperamos contribuir para a divulgação deste importante material, que faz parte da história da permacultura no Brasil. Por isso, seguimos publicando o texto introdutório deste material: um reconhecimento às pessoas que fizeram a revista circular entre os anos de 1998 e 2004.
Com uma tiragem pequena de apenas 1000 exemplares, distribuição limitada, trabalho voluntário, mas conteúdo de primeira, ela ainda hoje surpreende aqueles que folheiam um exemplar pela qualidade da informação.
Era para ser trimestral, mas nunca conseguiu. Foram ao todo 16 edições, que fizeram muito pela divulgação da permacultura entre nós, em um tempo em que ela ainda era uma ilustre desconhecida.
Há pouco tempo, alguns jovens permacultores se deram ao trabalho de digitalizar todas essas edições, por acharem que essa informação deveria estar disponível para todos. Não temos como discordar. A partir deste momento, vamos publicar todas essas 16 edições da Permacultura Brasil neste PermaForum.
Queremos com isso, além de divulgar boa informação, fazer um reconhecimento e homenagem a todos os que deram seu tempo e energia para que ela viesse a existir, e que, por isso mesmo, fazem parte da história da permacultura no Brasil.
Ali Sharif (in memoriam), que viu a necessidade de uma publicação e bancou a revista com recursos da PAL (Permacultura America Latina).
André Soares, que ajudou a criar e a dar o pontapé inicial na revista.
Lucy Legan, que propôs e escreveu uma sessão infantil para cada edição.
Fernando J. Soares, que pegou o bastão e editou sozinho as edições de 1 a 5.
Sérgio Pamplona, que editou as revistas de 6 a 12 sozinho, e co-editou da 13 à 16.
Nina Rodrigues, que editou as edições de 13 a 16.
Adriana Morbeck, que administrou a empreitada a partir da edição 6.
E a todos os colaboradores e colaboradoras que mandaram excelentes artigos e matérias que ao final formaram esse acervo de informação. Esperamos que a divulgação virtual e gratuita deste rico material sobre permacultura inspire e estimule muitas pessoas na construção da cultura de permanência que tanto precisamos.

“Simplesmente” viver a Permacultura!

Quando nos perguntam o que é permacultura sempre dá aquele branco, e brincando dizemos “quer a resposta curta ou a longa? Quanto tempo tens para ouvir a resposta?”. Brincadeiras á parte, na resposta curta dizemos que é ecologia prática, para criar ambiente humanos sustentáveis. A resposta longa implica em uma conversa mais longa sobre ética e ecologia, e um estímulo a fazer um PDC, de nove dias, ai fica bom! Também convidamos as pessoas a nos visitarem, seja pelo blog ou, pessoalmente.

Dizemos que a permacultura sem os permacultores simplesmente não existe , por este motivo seguimos dando um PDC por ano, em Yvy Porã, e colaborando na formação de instrutores de permacultura pelo Brasil. A permacultura não é religião, não é messianica, mas um conjunto de princípios, regidos por uma ética “cuidar do planeta, cuidar das pessoas, compartilhar excedentes e restringir consumo”. Esta é a zona zero da Permacultura, a área onde todas as nossas atenção e energia são colocadas, para depois passarmos a construir o espaço sustentável.

Em 2007, por ocasião da vinda de David Holmgren ao Brasil, organizada pela rede Permear, tivemos a honra e o prazer de convivermos durante dez dias com David e Su Dennet em nossa casa. Além do curso, foram muitas conversas à mesa ao longo dos dias.

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