O grande medo ao terceiro princípio da permacultura

Nesta postagem, mais uma reflexão do Jorge Timmermann, sobre a ética da Permacultura.

A permacultura desde sua origem, na de David Holmgren e Bill Mollisonn, propõe suas ações em uma ética clara, objetiva e  francamente declarada. Sem dúvida  a ética da permacultura propõe muitas reflexões e base para ações concretas. Nestas reflexões, aparecem artigos e ponderações de permacultores ao redor do mundo.

Em referência ao artigo publicado como “The Controversial Third Ethic of Permaculture” no site do Permaculture Research Institute (PRI) da Austrália, e outras iniciativas de protelar o importante para discutir o espúrio,  como é o artigo “Cuidar do Futuro” do autor, Milton Dixon, publicado originalmente no site Permaculture Pruductions LLC, é que escrevo esta postagem.

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Discutir interpretações e oferecer diferentes orientações respeito ao referido terceiro princípio ético da permacultura é, no mínimo, uma perda de tempo… ou o que eu penso, uma forma de tirar o foco do que é fundamental para nos desgastarmos no que é supérfluo.

O terceiro princípio ético da permacultura “Limites ao consumo e à população; redistribuição dos excedentes” provoca uma reação de terror para quem não quer mudar ou pensa em viver sob uma camada de tinta verde.

Sim, que fácil que é fazer de conta que concordamos com a ética da permacultura cumprindo com o primeiro princípio “Cuidar do Planeta”  preocupando-nos com o mico leão, ou com os elefantes da África, ou com as florestas sul americanas, ou sei lá com quantas ações com as que somos bombardeados no dia a dia. E também podemos aderir ao segundo princípio “Cuidar das pessoas”, imaginem quantas ações sociais são feitas nesse sentido!!!… Seja padrinho de uma criança na Somália, ou vamos nos inscrever nos médicos sem fronteira, ou podemos dedicar um dia ao mês para cuidar de algum velhinho num asilo, etc. etc. etc., sem contar com a quantidade de ações de assistencialismo que podem se desenvolver nas nossas comunidades vizinhas. Não estou debochando das ações mencionadas anteriormente, elas tem que acontecer sim!!!. Apenas não acho que estas sejam as únicas respostas que se esperam dos permacultores.

Quando expressamos os dois primeiros princípios éticos, nos cursos de permacultura (PDC) costumamos esclarecer que estes seriam suficientes se fossem compreendidos no seu âmago e com a amplitude das suas propostas éticas.

Como isto não é a compreensão, do comum das pessoas, necessitamos ampliar e especificar as ações concretas que permitam cumprir com o que é central, no sentido ético, dos dois primeiros princípios.

Assim, falar de limites ao consumo, limites à população e redistribuição dos excedentes coloca em cheque o sistema em que estamos incluídos.

Limite ao consumo limita a produção e crescimento da indústria de bens e serviços. Também coloca em cheque uma questão fundamental dos processos produtivos lineares: a falta de tratamento dos efluentes, que dá origem à  CONTAMINAÇÃO.

Se fosse imposta a regra de que qualquer atividade humana pode ser desenvolvida sempre e quando não contamine o ambiente… Garanto que fechariam todas as fábricas, os comércios e os prestadores de serviços.

Somos uma humanidade que polui, degrada e não considera as gerações futuras como herdeiras do planeta e do lixo que deixamos como geração mais velha.

Então, imaginemos o medo que provoca um movimento que propõe restrições, ou, o que é pior, acabar com estas práticas.

Limites ao crescimento populacional, não é mais do que colocar na nossa frente a responsabilidade de diminuir a demanda por recursos naturais, e começar a rever o nosso papel planetário. Não só devemos deter o aumento de habitantes, senão, começar a nos ligar ao meio em função de serviços ambientais, nossos e do ambiente. A atitude de diminuição ao crescimento da população deverá ser praticada para que tenhamos tempo de rever as nossas expectativas de sobrevivência no planeta Terra e desenvolver as estratégias de ação para isto.  Isso fere o direito individual de liberdade de procriação? Ou é uma atitude de prudência temporal.

Óbvio que não justifica colocar o problema no terceiro mundo nem na casa do vizinho… Salvamo-nos todos juntos ou não se salva ninguém.

A questão da redistribuição dos excedentes atenta diretamente contra a prática da criação de nichos de poder. Assim parece que todos queremos ter um espaço exclusivo onde exercer nossos podres poderes.

Isto acontece na nossa história desde que começamos a acumular excedentes como consequência da revolução agrícola e a construção de cidades na mudança da cultura nômade de caçadores coletores à agricultores assentados.

Qual o poder do império Egípcio? Os excedentes da agricultura marginal do rio Nilo. Esta área de extrema fertilidade permitia acumular grãos para abastecer de alimento aos egípcios e aos povos vizinhos… em troca da defesa das suas fronteiras.

Qual a estratégia imperial dos Astecas? Acumular e distribuir , segundo os seus interesses, os excedentes produzidos na sua original estratégia produtiva, as Chinampas. Assim é como eles chamavam as ilhas de fertilidade construídas massivamente no interior do lago Tlexcoco onde se situava Tenoxtitlán.

Hoje o elemento de poder, e que é de difícil barganha, é o “conhecimento” o “saber como” (know how); é o que determina os royalties, é o elemento de poder preferido pelo primeiro mundo.

Imaginem!!! Temos de presentear o conhecimento!!!!

Sim, o primeiro que temos que compartilhar é o conhecimento, isto é libertário e democrático. Isto promove a igualdade de oportunidades para todos.

Então, será que temos que trocar o terceiro princípio da permacultura, original de Bill Mollison e David Holmgren, por alguma outra expressão que desvirtue ou minimize nosso compromisso Planetário?

Sigamos “apenas” o fazer o certo e correto para o bem de todos, afinal, isto é a ética. E a ética da permacultura, proposta por seus fundadores, David Holmgren e Bill Mollisonn, segue atual, necessária e absolutamente clara quando propõe:

  • cuidar da terra
  • cuidar das pessoas
  • restringir população e consumo e compartilhar excedentes

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Aqui a tradução feita pelo Jorge do texto publicado no PRI :

O controverso terceiro princípio ético da permacultura

Publicado originalmente como “The Controversial Third Ethic of Permaculture” na página do Permaculture Research Institute (PRI) da australia. 13 de abril de 2017.

 

O núcleo da permacultura está enraizado na adesão da filosofia a três princípios éticos. Os dois primeiros, Cuidados com a Terra e Cuidados com as Pessoas, foram amplamente aceitos pela comunidade porque são claros e lógicos. O terceiro princípio ético, no entanto, tem sido objeto de alguns debates entre os praticantes da permacultura por muitos anos.

Na verdade, a discussão em curso sobre as várias interpretações deste terceiro princípio pode explicar sobre o porquê à filosofia da permacultura não se  difundiu mais, apesar de ter sido abraçada por comunidades e profissionais em todo o mundo.

Limites e equidade

Inicialmente, o terceiro principio ético foi introduzido como “Limites para População e Consumo”, mas foi expressada em uma ampla variedade de maneiras diferentes desde então: “Partilha justa”, “Limitando o uso de recursos e população “, “Distribuição dos excedentes” e “Viver dentro dos limites”. Embora exista uma grande relação entre essas expressões, a ideia de que o terceiro princípio ético é algo aberto para interpretação deixa um ponto de interrogação no que diz respeito à aplicação desse princípio no design de permacultura.

O sentido por trás deste princípio, de acordo com o Permacultura: Manual para Designers, escrito por Bill Mollison, é a proposta de que “ao regular nossas próprias necessidades, podemos manter recursos para além das necessidades requeridas nos princípios acima”, referindo-se aos dois princípios éticos anteriores. No entanto, quando a frase é abreviada apenas para a ideia de “estabelecer limites para a população” pode levar a mal entendidos, particularmente pelos defensores da justiça social, que levantaram preocupações em torno a insinuações de genocídio e de eugenia que podem ser lidos nesta frase.

Na década de 1980, o pioneiro dinamarquês de permacultura, Tony Andersen, reformulou a terceira ética como “Partilha justa”, em um esforço para evitar qualquer discussão sobre esses pontos polêmicos. Mas, enquanto esse fraseamento simples parece agradável, quando combinado com os outros dois princípio éticos, deixa para fora uma das principais ideias por trás desse terceiro princípio, o conceito de projetar dentro dos limites.

 

População vs. Uso de Recursos.

Os ecólogos definem “capacidade de carga” como o tamanho da população que um ambiente pode sustentar durante um período de tempo, levando em consideração os vários recursos disponíveis nesse ambiente. Quando a quantidade de recursos exigida por uma espécie é igual à quantidade de recursos disponíveis, a capacidade de carga é alcançada. Se a população continua a aumentar e a quantidade de recursos não, a natureza corrige o desequilíbrio, assegurando que as taxas de mortalidade aumentem acima das taxas de natalidade, deixando que a população volte debaixo da capacidade de carga.

Este é o desafio apresentado pelo terceiro princípio ético da permacultura, viver dentro dos limites, para manter nossa população e uso de recursos globais sob a capacidade de carga. À medida que nossa população aumenta, obviamente, haverá menos recursos disponíveis para cada indivíduo.

A permacultura tenta usar o design sustentável para determinar o uso médio de recursos que pode ser mantido durante um longo período de tempo, o que é parte do pensamento por trás deste controverso terceiro princípio ético.

Com a escassez mundial de alimentos decorrente do impacto negativo das mudanças climáticas sobre o rendimento dos cultivos, a ideia de capacidade de carga e viver dentro dos limites torna-se ainda mais necessária. O maior problema que nosso planeta enfrenta, no entanto, não é necessariamente uma população crescente em países menos desenvolvidos, em vez disso, é o excesso de consumo das populações ocidentais que contribui mais para o uso insustentável dos recursos.

Este terceiro princípio ético tenta abordar esta questão, enfrentando uma das partes mais feias da natureza humana: a ganância. É essa ganância que nos leva a acumular recursos muito além do que podemos usar, mesmo quando outros lutam para fornecer o suficiente para si ou para suas famílias. Não só isso é errado, é insustentável em longo prazo.

Permacultura e socialismo

Parte desse terceiro principio significa entender que a permacultura inclui a ideia de que as necessidades básicas de todos devem ser atendidas, encorajando a justiça não apenas entre os seres humanos, mas também entre a humanidade e outras espécies. Mas, mesmo esta interpretação, está sujeita à visão de mundo de cada indivíduo. Pessoas com tendências mais socialistas ou comunistas poderiam levar essa ideia com o seguinte  significado: que “se você fizer mais do que você precisa, deve dar a outras pessoas, incluindo aqueles que não fizeram nada para ganhá-lo”.

Embora o altruísmo seja certamente encorajado, a história mostrou que os conceitos norteadores do socialismo e do comunismo foram insustentáveis. A definição desta ética como um dos princípios condutores da permacultura pode, em parte, explicar por que a filosofia não foi mais amplamente abraçada; promove o pensamento de que, para praticar a permacultura da maneira em que Mollison e o cofundador David Holmgren pretendiam, eles devem doar todos os seus pertences e viver em uma comuna com outros permacultores.

 

Essa ideia foi até mesmo levada um passo adiante, imaginando que qualquer um dos excedentes produzidos através do projeto de permacultura deve ser distribuído, incluindo o conhecimento. Em vez de aceitar pagamentos por ensino, consultoria ou escrita, esta informação deve ser compartilhada gratuitamente. É uma boa ideia, mas é difícil convencer as pessoas a colocar sua energia e recursos em um projeto onde as recompensas serão compartilhadas com pessoas que não fizeram nada para ganhá-las.

Permacultura não é socialismo. Os praticantes não são obrigados a viver em uma comuna, trabalhando gratuitamente e dando o seu excesso. A permacultura não impede que você ganhe uma vida decente, de fato, a permacultura pode trazer aos profissionais todos os tipos de benefícios, inclusive financeiros. Mas, enquanto essa crença continua a penetrar na sociedade dominante, será difícil para os permacultores levar essa ciência às massas.

Avançando

Em vez disso, este terceiro princípio ético polêmico, deve atuar como uma luz orientadora para ajudar aos indivíduos a examinar seu próprio uso de recursos com mais cuidado, buscando reduzir seu consumo e enfrentar o desafio social de compartilhar não apenas o excedente, mas também o trabalho e a produção. Permacultura atua em nível de comunidade, sobre a capacidade dos ecossistemas de se autorregularem e se recomporem e sobre sustentabilidade.

Mais pessoas estão começando a abraçar o conceito de “Retorno de Excedente” como uma expressão do terceiro princípio, que pode estar mais em consonância com o significado original da ética. Em vez de criar resíduos, os permacultores são encorajados a devolver o excesso de volta para onde ele veio. Isso pode se aplicar, em um sentido ambiental, através de práticas como cortar e jogar, alimentar o solo, ou permitir que os produtos muito maduros se decomponham e fertilizem o solo.

Mas o conceito também se aplica a outros aspectos da permacultura, incluindo seu investimento de tempo, trabalho e recursos. Os retornos desses investimentos, financeiros ou de outra forma, podem ser reinvestidos e devolvidos na sua prática de permacultura, garantindo a sustentabilidade e a recomposição ambiental.

Quando é aplicado na prática da permacultura, esse terceiro princípio deve ser usado para orientar o tipo de planejamento estratégico que nos ajudará a trabalhar em direção a um futuro em que não só cuidemos de nós mesmos, mas também para outras populações humanas e não humanas, e mesmo para a Terra em si.

 

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Um comentário sobre “O grande medo ao terceiro princípio da permacultura

  1. “Salvamo-nos todos juntos ou não se salva ninguém”. É exatamente a FALSA impressão de segurança trazida pelo capital, que leva as elites a continuar ‘produzindo riquezas’ às custas do planeta, com a crença que comprarão sua fuga da hecatombe ecológica que nos espera caso sigamos no rumo da sociedade de consumo.

    De fato, no fim das contas, todos seremos impactados, mas até lá as diferenças sócio-econômicas permitem que alguns vivam vidas confortáveis (frequentemente com muito mais que o necessário) enquanto outros sobrevivem apesar de lhes faltar o suficiente.

    O medo da terceira ética (o retorno do excedente) está intimamente ligado com dificuldade que temos de pensar uma sociedade projetada além do capitalismo. A retórica do texto que gerou as reflexões do Jorge revela isso. Ela procura evitar a associação da permacultura com o ‘comunismo’ ou com o ‘socialismo’ como se essas abordagens fossem opções abomináveis… Embora tanto o comunismo como o socialismo tenham em grande falhado em todos os lugares onde foram instaurados, a pergunta que fica haja visto o Antropoceno, o aquecimento global e os índices inaceitáveis de desigualdade por todo planeta é: e onde o capitalismo com sua lógica de competição e acúmulo deu certo? No Planeta Terra que não foi!

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