Publicado em Relatos dos caminhantes

Yvy Porã, por Daniel Monteiro Lacerda

Fazer uma casa assim, com as nossas mãos é uma experiência e tanto… Partilhar este processo, abrindo as portas para outros que querem ver, fazer, estar é também nossa proposta. Temos tido muitos amigos ajudando, mas todos conhecidos de outras caminhadas- Rodrigo, Cecília, Revero, Mariani e Isabel, Jorge André, Tadê, Carol, Marco Aurélio…
Daniel Monteiro Lacerda é o primeiro “voluntário desconhecido”, quer dizer, o primeiro que tivemos contato apenas por mail e que veio para estar e colocar as mãos na massa! Grandes expectativas, uma certa ansiedade: como será isto?

Foi muito, muito bom! Partilhamos o tempo, o alimento, o trabalho…E pedimos um relato destes dias em Yvy Porã. Então, esta postagem é deste relato do Daniel, que depois desta vivência virou mais um grande amigo!

Na foto abaixo, Daniel e Suzana na porta da casa Mãe de Yvy Porã.

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No princípio foi a tinta. Eu havia recém-pintado a minha casa com a terra do meu bairro, vermelha como a do projeto da casa de Suzana e Jorge em Yvy Porã, comentei a respeito na comunidade Permacultura do Orkut e ela fez contato.Daí à ida para lá foi um pulo.

Minha passagem por Yvy Porã ilustra como o tempo é relativo. Com três dias a menos do que o previsto, seriam apenas dois dias incompletos e tanto trabalho a se fazer… Após uma noite de conversas, a primeira manhã de trabalho, eu ansioso para ver como funcionava a taipa socada, levantei cedo e fui lá conferir a dureza da parede. Bati uma, duas, três vezes, aumentando a força. É firme mesmo.

Ansioso por receber as instruções e pôr mãos à obra, fiz a “troca de turno” com o Revero. Minha ansiedade foi por terra, quando, ao dar-me as instruções, Jorge deu-me uma aula em que falava não somente da técnica, mas do modo de fazer e da filosofia da permacultura.“Observe um trabalhador rural experiente. Ele parece lento, parece não estar fazendo esforço, mas gasta o tempo e a energia necessários para cumprir sua tarefa. Ele não se cansa à toa. Conhece seu ritmo. No final do turno de trabalho ele cumpriu o dever do dia.”.

Révero passando o pilão para o Daniel

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Falando sobre o fazer a sua casa: “Se a pessoa prefere pagar, tem à disposição bons profissionais que projetam e constroem uma bela ‘casa rústica’ com textura de taipa e acabamento perfeito em muito menor prazo. Ou então você decide que vai construir sua casa’, e a faz no tempo que der, como der, com imperfeições, diferenças na umidade e na socagem da massa…”, “Não precisa pagar 50, 100 mil para se fazer uma boa casa. É possível fazer com 5.”… “Mas essa casa só pode ser construída na zona rural; se fosse na cidade, o projeto nem seria aprovado, não receberia o ‘habite-se’, pois o uso de água pluvial e o sanitário seco fogem às normas sanitárias urbanas.”

Entendi que princípios norteadores da permacultura, como o de zoneamento, podem ser aplicados de acordo com as configurações do local e a sensibilidade dos ocupantes. Em Yvy Porã, a zona 1 do Jorge e da Suzana (residencial) se encontra vizinha à zona 5 (não-interferida), quase mescladas. Fomos visitar a reserva, onde reina uma figueira tricentenária, com seus portentosos galhos e raízes dominando o local e servindo de suporte para diversas espécies. Ao vermos como ela “constrói” seus galhos, podemos aprender sobre engenharia e arquitetura; e pela retenção de água, terra e nutrientes feita pelas raízes, aprendemos sobre manejo de solo.

Na foto abaixo, Jorge olhando a parede ao lado da porta, feita no capricho com a ajuda do Daniel.

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Partilhar a companhia de Jorge e Suzana é, ao mesmo tempo, prazeroso e instrutivo. Cada conversa com eles pode render material publicável, de grande proveito para todos os que se interessam pela construção de um mundo melhor.

 

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Julho, voluntários e a “quase porta”…

Depois de um longo período fora, em outras atividades, retomamos a obra da casa da montanha!

Tivemos uma semana de frio moderado, quase primaveril, acolhendo os voluntários, Révero, parceiro do Pronera e Daniel, o mineiro que chegou como voluntário e depois de 10 dias juntos viramos “amigos desde sempre”!

Em cada etapa da casa algo se aprende! Nesta semana trabalhamos na parede da porta de entrada da casa- uma porta comprada numa loja de demolições, de canela, duas folhas com janelinhas! A porta deverá ser restaurada mais tarde. Assim, nosso vão estava definido- 1m de largura.

A “novela das madeiras”.. Bom, quando se olha uma casa pronta, a gente tem a fantasia de que todas as madeiras são retas, perfeitas, e o que não é reto… não serve! Uma idéia quase infantil, não é! Mas ao se fazer a casa, a história é bem outra!

Na foto abaixo as vigas laterais da porta de entrada.

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Bem, nossas vigas e caibros foram cortados de árvores de Eucalipto Citriodora, com mais de 30 anos! Uma madeira linda, pesada como ela só! MasEucalipto tem uma fibra bem especial, longa e “enroscada”… As vigas, estaleiradas há um ano já secaram. Madeira, dizem os antigos, deve ser cortada quando a seiva está no pé! Lua nova de meses ser R ( maio, junho, julho e agosto). As nossas foram cortadas numa lua nova de julho do ano passado, por isso tem suas formas definidas. Achar uma viga reta, sem barriga ou na forma de uma banana é coisa rara! Assim, temos que trabalhá-las e arrumá-las no local, na obra, na parede, antes de socar a terra. Para isso usamos caibros, tacos, alavancas, tirantes de arame puxando… uma ginástica!

Na foto abaixo, Revero e Jorge colocando as ripas “corretoras” na parte de baixo das paredes ao lado e da porta.

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O início de cada parede é um trabalho lento, difícil, pois tem-se que colocar uma tábua no alto dos pilares, colocar as vigas laterais de janelas ou portas, ver o prumo, alinhar as madeiras… Isto leva tempo e é um trabalho essencial, pois dele dependa o quão “reta” e equilibrada ficará cada parede!

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Na foto acima Suzana e Jorge na porta da casa, já com o batente dfo alto da porta que ajudou a “aprumar” as madeiras:

Depois disto é preparar a terra e socar! Fizemos algumas experiências e o ponto de umidade é importante, assim como a mistura caprichada, o socar e socar, isto deixa a parede mais uniforme! Jorge trouxe outra boa dica do Bio contrução do Beira Serra em Botucatu: a primeira “passada” do socador deve ser bem suave, com a função de dar uma espalhada boa e uniforma na terra. Depois passa-se a socar com mais vigor!

Também observamos que nossos voluntários socam a terra muito bem… É o ânimo da moçada que chega!

Depois de 4 dias de trabalho, com estes dois amigos, saimos de Yvy Porã com uma das paredes ao lado da porta pronta e a do outro lado já começada.Nesta última foto Jorge e Daniel colocando a última forma de uma das paredes.

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Publicado em O projeto

A planta baixa

Para que trabalha em escolas, o final do semestre é sempre corrido, muitas coisas a “fechar”… Ainda juntamos PRONERA e cursos, ai a coisa fica complicada mesmo!

Neste junho ainda tivemos dois cursos que Jorge está dando- um PDC em Curitiba, que acabou hoje, outro em Botucatu, de Bio Cosntrução, onde ele vai ministrar uma oficina de biodiesel, que começou hoje!

Assim, nossa casa ficou esperando… E a vontade de estar lá, ainda mais…

Então, como uma maneira de fazer algo, brinquei com o sketchup… Coloquei na perspectiva olhando do teto para baixo e tirei o telhado da casa para poder ser visualizada como será  por dentro!

Então ai está… Com direito a alguns móveis para se ter uma idéia das proporções e de como pretendemos ocupar este espaço!

Em breve retomaremos a obra e ai teremos mais novidades, fotos e processo no blog.

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Publicado em O projeto

O projeto

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Uma das perguntas que me fazem é “E a planta da casa?”.

Bom, este é um projeto que andou, amadureceu muito… Desenhamos, rabiscamos, fizemos mil plantas, até chegarmos à simplicidade da cabana que estamos fazendo.

Estamos na fase da vida que a casa diminui, pois as filhas saem de casa, alçam seus voos. Então, aparece a simplicidade e o singelo, de viver a dois, num espaço gostoso, cômodo, nosso!

O que é desejo: uma bela cama, uma grande cozinha, pois a vida se dá ao redor do alimento, um banheiro com um bom banho e um cantinho para o computador… Ah, e uma varanda é essencial para estar com os amigos numa tarde de sol…

E assim é nossa casa. O projeto é de um ambiente todo integrado, sala, cozinha e quarto, o octógono de 4m de raio. Para um lado puxamos a varanda. Para o outro aparece o reservado do banheiro ( seco, obviamente), com o box dando para a mata, medindo 2x3m. Ele cria os dois “cantos” trapézios, que formam o escritório de um lado, e a lavanderia do outro- para não entrar com botas sujas em casa.

O projeto acima foi feito nas férias forçadas do Jorge, usando um programa chamado sketchup. Aquelas coisas de computador, que se pode entrar, caminhar, etc…

Salvei este ângulo, a face norte, onde se chega na casa, para que se possa ter uma idéia da “cara da casa”… Logo que eu procurarei salvar a planta baixa como JPEG e coloco no blog.

Publicado em Artigos e livros

Cecília e Yvy Porã

 

Ao iniciarmos a nossa obra, uma das nossas muitas propostas era abrir a experiência para outras pessoas… Não apenas que se visse uma casa pronta e ouvisse o relato de como foi feita!

Jorge e eu não nos animamos a fazer registros detalhados da obra, nem sair publicando relatos, experiências, participando de grandes eventos, etc… Já passamos desta idade! Mas achamos que é uma possibilidade que poderia ser compartilhada! Que outros, moçada mais nova, poderiam se apropriar do processo.

Assim, Cecília entra nesta história, muito além de ser uma pessoa querida, ex-aluna minha, amiga da minha filha na adolescência, filha de outra grande parceira, etc! Uma jovem estudante de arquitetura, insatisfeita algumas perspectivas profissionais e que está buscando caminhos para a sua vida. Na busca por caminhos, ela achou a permacultura e nos buscou, em especial ao Jorge, para conversas, assessorias de alguns trabalhos, diálos sempre longos, muitas idéias, prancheta na mão… Esta busca deu o gancho para a proposta feita, e que foi assim mesmo:

“Ciça, queres te apropriar deste projeto, ir registrando, acompanhando, e até usar isto para trabalhos, publicações, etc… Tá ai! Vamos juntos e o “projeto é seu”.”

Ela se animou, e tem sido uma parceirona- faz plantas, desenhos técnicos, põe a mão na massa, faz concreto, assenta pedras, mediu níveis, soca terra… Também e vem organizando o material entre o que vivemos na obra e um relato técnico. Neste aspecto trabalha o arquitetônico e também fotográfico! Cada ida dela para Yvy são umas 100 fotos por dia, e muitas fotos postadas aqui são de sua autoria!

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Na foto acima, Cecília e Jorge fazendo a massa para os alicerces em dezembro de 2006!

Bem, esta parceria está dando o seu primeiro fruto…

A Casa da montanha de Yvy Porã irá participar do II ELECS – Encontro Latino-americano sobre Edificações e Comunidades Sustentáveis (www.elecs2007.com) –, que este ano será sediado na cidade de Campo Grande – Mato Grosso do Sul, de 12 a 14 de novembro.

Os objetivos do evento estão definidos como “reunir e expor práticas e pesquisas em andamento, discutir a aplicação dos conceitos relacionados à sustentabilidade e agregar cada vez mais dados que auxiliem na construção de edificações, comunidades rurais e urbanas mais sustentáveis”.

As reflexões e registros sobre a mais nova casa de Yvy Porã, com autoria de Cecília Lenzi e Jorge Timmermann, estarão expostas no eixo denominado Permacultura, e irão trazer para discussão as estratégias e técnicas que estão sendo utilizadas na construção. Nosso objetivo é trocar idéias, receber críticas, conhecer outras experiências e com isso cada vez aprender mais!

Os pés seguem na terra mas os olhos estão adiante…

 

Publicado em Paredes de taipa

Terceira parede

Maio se foi, foi um lindo mês, com um frio danado, mas com cores no céu e nas plantas que sempre nos surpreendem e encantam.

Maio também trouxe uma nova rotina para nós, mais tempo em Yvy Porã. Nesta época a grama, os pastos, o verde, muda de cor, e não cresce tão rapidamente- o que faz “sobrar” tempo para outras atividades, além de cortar grama, manter os caminhos roçados e as frutíferas sem pasto abafando-as.

Neste início de junho, Jorge dedicou-se bastante à nossa obra, e as paredes cresceram! Claro que vamos aprendendo, pegando as manhas, e agilizando procedimentos que no início eram todo um mistério!

É engraçado lembrar de conversas e dilemas sobre como colocar a primeira forma, como começar a socar? Há frestas entre o alicerce a forma…o que fazer?

Agora outros dilemas aparecem, e sabemos que iremos solucioná-los da mesma maneira- vivendo cada dia com a sua preocupação e a sua solução!

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Nesta etapa, estamos na terceira parede, que tem uma imensa janela para a varanda. Nos deparamos com alguns problemas e suas soluções:

  • formas pequenas de uma tábua apenas, ajudam o trabalho individual, e vão super bem nas paredes laterais às aberturas.
  • nesta forma é preciso socar com menos quantidade de terra, senão não compacta bem.
  • caprichar na mistura terra+areia+cal é fundamental, se ela fica pouco homogênea também compromete a compactação.
  • observe sempre ( isto é um dos princípios da permacultura propostos pelo David Holmgren), pois o seu solo pode mudar um pouco, ai equilibre a mistura na proporção já falada anteriormente.
  • formas pequenas podem rachar… Esteja preparado para trocas, pois uma trinca faz com que barrigas apareçam na sua parede. Sim, é incrível, mas é verdade!

terrasu.jpgNa foto acima, Suzana fazendo a mistura para a parede.

Como estamos trabalhando com pilares que vão sendo “amarrados” às paredes, e temos um poste fixo, colocado no chão no meio da obra, temos estas tábuas, fixando cada pilar à medida que vamos levantando as paredes. São como raios de uma roda de bicicleta dando estabilidade ao conjunto. Às vezes são nosso apoio, para colocar escadas, andaimes, tábuas, etc. Outras vezes nosso incômodo, principamente para “pequenos” como Jorge, que podem bater a cabeça nos raios que ficam mais baixos…

Nosso pilões para socar são 3, um maior, que faz o trabalho pesado, e este deve sempre estar forrado com plástico preto, para que a terra não grude embaixo. Com este forro fica absolutamente nivelada a terra ao ser socada. Os outros dois são caibros menores, cortados a 45° para poder socar nos cantos e nas bordas. Socar bem é outro segredo, ainda queo cansaço do dia seja forte, ainda que seja mais devagar… Calma- soque bem, vale a pena!

E assim seguimos, numa semana do Jorge trabalhando sozinho e nós dois juntos na sexta e sábado, terminamos a terceira parede da casa, colocando o travessão da janela da varanda e socando os lados até 2,1m.

Agora junho terá um espaço de poucas atividades, pois teremos cursos em Curitiba e depois em Botucatu, além de outras atividades! Mas saimos com esta bela foto com as luzes do por do sol, e um frio que chegou sem aviso no final da tarde.

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Publicado em Paredes de taipa

Finalmente…paredes lindas!

No mês de abril e maio nossa rotina de ida a Yvy foi quebrada. Tivemos o curso com David Holmgren, co-fundador da Permacultura, que esteve em Floripa. O curso foi importante, e os dez dias de convivência com David e Susan, sua companheira, foram realmente especiais.

Na foto abaixo, David, Jorge e Suzana na nossa casa em Floripa.

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Este casal montou uma unidade familiar de permacultura chamada Melliodora (na Austrália) e conviver com eles, discutir, respirar, compartilhar experiências em permacultura foi importante. (ver site do David no blogroll).

Jorge e eu nos sentimos profundamente tocados, incentivados a cada vez mais criar o espaço de Yvy Porã, tanto o nosso, pessoal, como o espaço de acolher pessoas.

Depois desta vivência, Jorge decidiu que, nos tempos onde não estivesse dando cursos, estaria mais tempo em Yvy Porã, seguindo a construção da casa. E assim tem sido, o que deu uma acelerada na nossa obra! Também tivemos a ajuda do Rodrigo, nosso samurai do Pronera, sempre bem humorado e disposto a aprender, do Luiz, estudante da 25 de maio, a Carolzinha, prof. de ciências, o Mariani e a Bel, parceiros de Yvy Porã- pessoas queridas e amigos especiais!

Ao subir as paredes fomos nos dando conta de que socar acima de 2m fica muito incômodo, pesado, a pessoa que soca fica numa posição instável, etc. Já havíamos conversado sobre a possibilidade de usar taipa apenas até a altura das portas e janelas 2,1m e depois fechar com outros materiais, como vidro, madeira, pau-a-pique, etc. Assim, quando realmente chegamos aos 2,1m esta possibilidade virou opção!

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Na foto acima Jorge socando a parede ao lado da janela da varanda a 1,90 do chão! Neste ponto ainda há a possibilidade de colocar o pé como apoio na forma. No próximo nível, isto fica inviabilizado, e a instabilidade cresce ainda mais!

Quer dizer, as paredes de taipa sobem até a altura das aberturas. Ai receberão uma vida de madeira e daí para cima, fechamentos alternativos.

Na foto abaixo a nossa primeira parede com a abertura da janela da cozinha.

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As paredes ficam protegidas por lona plástica, para que não recebam chuva, pois ainda não foram rebocadas e também não temos o teto. Asssim a secagem é lenta, na foto acima percebe-se pela cor o tempo de feitas. As mais claras, nesta foto, tem 6 semanas de feitas. (foto final de maio de 2007).

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Paredes subindo…

Misturar areia, cal e barro, socar paredes… Uma rotina e tanto!

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Na foto acima Jorge iniciando a segunda parede. No pilar pode-se ver os arames farpados da amarração.

Aos poucos vamos pegando a manha, e o sabor de cada pedaço que sobe e vai dando formas à casa… A sensação disto é indescritível.

A terra deve ser socada, para que os grumos ou “pedras” de barro não atrapalhem a compactação dentro da forma. Assim, fizemos uma grande peneira, com tela de galinheiro, e vamos desfazendo os grandes morros de terra passando-a pela peneira. As bolotas que sobram serão usadas para dar o nível do piso da construção, e a terra peneirada vai para as paredes.

Na foto abaixo Suzana peneirando a terra.

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A msitura é um dos grandes segredos da taipa socada, segredos que se descobrem ao fazer a casa. Misturar bem, ainda que os braços se cansem, é sinônimo de parede uniforme.

A primeira parede, onde ousamos, experimentamos e erramos foi fundamental. Na segunda, aprendendo sobre as experiências feitas, analisando os erros e revendo os caminhos, a coisa vai andando muito rapidamente!

Os lados do octógono tem 3,15m. Na primeira parede, única sem nenhuma abertura, nem porta, nem janela, colocamos um pilar de medeira de 15cm por 5 no meio. Isto facilita muito o socar a terra.

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Nas outras estes pilares não roliços, já fazem o marco das abertura, ou seja, são os batentes das portas ou das janelas, e cada parede acaba tendo 3 partes. Fica uma casa meio enchamel…

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Nesta foto Jorge, Suzana e Rodrigo colocando o pilar que divide a segunda parede em 3 partes, pois teremos a janela no meio.

As aberturas serão feitas pelo Jorge na própria obra, fora a porta de entrada, que compramos numa demolição, e uma veneziana que uma amiga ia jogar fora e nós pegamos!

Nesta foto a parede antiga, com suas trincas e erros, e a parede com o teste da mistura “boa”, descrita na postagem anterior. ( foto de março de 2007)

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Publicado em Paredes de taipa

Amarração das paredes

Mas, as paredes ficam de pé? Elas não caem? Elas ficam assim, soltas? Estas são perguntas frequentes quando se fala em construções com terra.

O encontro ou junções de materiais distintos, como madeira e tijolos, madeira e terra, nunca é simples, pois estes materiais tem dilatação e trabalham de maneiras diferentes. Então, mesmo se você for fazer uma casa de tijolos, com estrutura e pilares de madeira, acostume-se a ter uma dilatação, uma trinca entre estes materiais.

Bem, mas e a nossa casa, como fica em pé?

Os pilares:

amarrados nos baldrames do alicerce. Dalí saem dois tirantes que fixarão as vigas do madeiramento do telhado. Quer dizer, o telhado estrá ancorado no chão. Estes tirantes ficam dentro das paredes de terra, rentes aos pilares.

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As paredes:

a cada 0,5m há um arame farpado que passa dentro das paredes e através dos pilares (por um furo nos mesmos). Isto é uma cinta que amarra as parede de terra ao pilar de madeira. Esta cinta é pregada a cada tramo, na madeira, para o caso de uma romper, não solta todas.

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Na foto abaixo detalhe dos pilares onde se vê os arames farpados que vem amarrando as paredes.

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Assim, quando se constrói com tijolos as paredes são amarradas pelos próprios tijolos, ou num modelo igual a este, com pilares e panos, cada parede seria amarradas com barrinhas de ferro que prenderiam as paredes aos pilares. Nas paredes da casa de taipa são amarradas com fios de arame farpado a cada 50 cm em todo o seu perímetro.

Publicado em Paredes de taipa

Iniciando as paredes

Desde muito antes de começarmos o projeto da casa havíamos decidido que nossa casa seria de taipa socada. Esta opção foi tomada considerando-se muitos fatores:

  • é um material ecológico e disponível no local
  • permite que a experiência de construir seja replicada por outras pessoas
  • tem bom isolamento térmico e acústico
  • tem o sabor de algo “feito à mão”.

É importante saber qual o solo que cada um tem… O teste da garrafa Pet é sempre uma boa prova para se iniciar a observação do que se tem e o que se deve fazer! Lembrando-se de que é uma construção orgânica, quer dizer, com complexidade, movimento, vida. O seu solo pode mudar dependendo do local, profundidade, etc.

O teste do solo pode ser feito numa garrafa Pet, onde se coloca um terço dela do solo que será usado, preenche-se de água, mistura-se bem agitando a garrafa e espera-se decantar. A granulometria é clara: areia no fundo, argila mais fina em cima. Nosso solo apresentou em vários testes 60% de argila e 40% de areia.

Abaixo a foto de um dos nossas testes.

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Assim, começamos as paredes! Jorge fez a forma de 1,5m de comprimento por 0,6m de altura. Alguns sarrafos de madeira reforçam a estrutura, para que ao socar a terra a forma não abra, ou forme barrigas.

Esta forma é presa na parte de baixo por 3 parafusos que passam de lado a lado e travados com porcas e arruelas. Na parte de cima por 3 sargentos, que seguram a forma para que ela não se abra.

Assim, vai se socando a terra, e quando se enche a forma, retiram-se os parafusos, os sargentos, e a forma. A parte de baixo está pronta, pode-se assim, subir a forma para a próxima camada. Alguns detalhes simples que permitem esta operação:

  • dentro da forma, passar os parafusos por dentro de um canudinho de bambu, pois se não, ao socar a terra ela prenderá os parafusos e não será possível retirá-los.
  • prender sempre a forma na parede que foi feita anteriormente, se for acima irá ficar uma camada sem compactação.
  • compactar devagar. As camadas muito grossas de terra compactam apenas a parte de cima, a de baixo fica sem compactação e isto compromete a estrutura da parede

Na foto abaixo estes detalhes da forma, vejam os canudos de bambu por onde passam os parafusos.

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Um dos segredos das construções com terra é a proporção de argila x areia que deve ser seguida sempre: 40%argila, 60% de areia, isto consta de todos os manuais, livros, etc de construções com terra.
Com o desejo de simplificar o processo e de acelerar a obra experimentamos fazer as primeiras fileiras com o solo peneirado direto, isto é, mantendo a proporção natural do mesmo. Era a parede sul, que ficará atrás de um armário, possivelmente, quer dizer, um excelente espaço para testes! Como temos muita argila, abriram imensas rachaduras. Argila demais se contrai, ao se contrair separa dos pilares mais do que o desejável, e abre fendas – proporcionais ao tamanho da parede. Se a parte socada for pequena, racha menos, se for maior, racha mais…

Se houver areia demais a parede cai… Conta uma história real, que uma parede feita num assentamento do MST ao ser socada cada fileirinha, a de baixo caia, e caia, e caia… Os agricultores diziam que algo estava errado, mas o profissional afirmava, teimosamente, que não, que era assim mesmo… Resultado- o profissional virou as costas e os assentados demoliram as paredes que ameaçavam cair sobre alguém… Um destes agricultores, num curso PDC, ao ver uma parede bem feita e ao ouvir a explicação da proporção argila areia sorriu e disse “Claro, nosso solo é muito arenoso, por isso as paredes caiam…”.

Ao ser socada o solo argiloso fica realmente lindo, parece uma parede sólida, firme, linda! Mas ao secar é que acontece a contração… Ela se separaou demais dos pilares e rachou muito…

Resumindo, a vontade de ter menos trabalho, causou trabalho em dobro, pois tivemos que cobrir as rachaduras depois, usando barro, areia e cal, que estabiliza a argila.

Mas como tudo é experiência e quem pensa sobre seus erros cresce e aprende, conseguimos chegar à mistura ideal para o nosso solo:

40% de argila – 2 baldes de terra peneirada

60% de areia – 1 balde de areia média

10% deste total de cal – 1/3 de balde

Uma dica importante é misturar primeiro as partes secas (areia e cal), depois a terra e finalmente colocar a água para dar a consistência ideal para socar , nem muito seca, nem muito molhada. Este ponto é absolutamente empírico, ou tátil: a melhor prova é pagar um punhado na mão e apertar, em seguida balançar este bolinho segurando apenas com polegar e indicador. Ele deve estar firme e não quebrar muito facilmente.

Como vamos vendo e aprendendo, o caminho se faz ao caminhar! Muitos passo, alguns erros, outros tantos acertos.

Tem sido uma fantástica experiência esta de fazer a casa com as mãos, num tempo nosso, num rítmo nosso. É uma obra absolutamente própria, com personalidade… Eu sei, Jorge sabe, cada coisa como é feita, por que é feita, que tempo leva, a energia que gasta.

Sim, sim, nossa casa vai saindo do chão! E o mais delicioso é saber que “nós sabemos fazer isto, fomos nós que fizemos, com essas mãos”.

Na foto abaixo as primeiras filas de parede socada em fevereiro de 2007.

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