Publicado em Artigos e livros

Relações e conexões “tudo está ligado com tudo”

Em tempos de pandemia, publicamos uma reflexão do Jorge Timmermann de um dos princípio do design em permacultura, vindo da observação dos sistemas naturais” tudo se conecta com tudo“. Mais atual, impossível! Que o momento de CAOS, gere o novo! Força, Gente!

 

 Tudo se conecta com tudo

Jorge Timmemann

Quando falamos de Permacultura dizemos que ela é holística e coerente com uma abordagem sistêmica enquanto a sua visão de como viver no planeta Terra. Ela nasce no século passado (Bill Mollison e David Holmgren, 1975) como uma síntese e proposta metodológica, no seio das várias correntes de expressões ambientalistas e ecologistas mundiais da época.

A nossa cultura nos últimos séculos (idade Moderna, séculos 15, 16, 17) foi nos afastando da natureza em consonância com o avanço do conhecimento científico; sendo que isto último, longe de ser um problema, foi um custo necessário. O conhecimento humano tinha explodido num universo de saberes onde a Física e a Matemática fizeram o papel preponderante, dentre as outras ciências, em decorrência do acumulo de novos conhecimentos/evidências científicas que explicavam o antes inexplicável: Universo, Matéria e Energia.

Mas, no seio desta revolução do pensamento, mecanicista e cartesiana, já existiam os primórdios de uma nova concepção no que diz respeito à compreensão do nosso mundo, da natureza, como uma unidade sistêmica. Em referência a isto, podemos lembrar que Leonardo da Vinci (1452-1519) foi o precursor do método científico, logo consagrado na Revolução Científica (séculos 16 e 17) na linha dos trabalhos de Nicolas Copérnico, Johannes Kepler, Galileu Galilei, Francis Bacon, Renné Descartes e Isaac Newton. Também é de destaque o fato que a “ciência” de Leonardo não era para dominar a natureza… senão que se espelhava nela; no dizer de Fritjof Kapra “Esta atitude de considerar a natureza como modelo e mentora (dos seus projetos) está sendo, novamente, incentivada 500 anos depois de Leonardo, na prática do planejamento ecológico”(Fritjof Kapra (2014) A Visão Sistêmica da Vida-, pag. 30). A Permacultura no seu Método de Design segue esta mesma corrente de pensamento.

 

Então, a partir dos séculos seguintes (e já na idade contemporânea, séculos 18, 19 e 20) foram-se aprimorando saberes que nos levam ao conhecimento e compreensão atual sobre Sistemas.

Einstein perguntado sobre o seu brilhantismo, disse que estava apoiado nos ombros de gigantes que vieram antes dele. Neste contexto é que podemos conceber a Permacultura como a ciência de restabelecer conexões, apoiada em muitos que vieram antes e simultaneamente a Bill Mollison e David Holmgren.

Quando nós, permacultores, falamos de conceitos de ecologia ou de princípios dos sistemas naturais, dizendo que “tudo está conectado com tudo” não fazemos outra coisa do que nos referirmos a uma das caraterísticas mais permanentes e imanentes da natureza:

“O universo dos seres vivos, a vida, no planeta Terra

está construído sobre uma sequência de funções, ciclos

e sistemas dentro de sistemas”.

Nada está fora desta configuração… Tudo foi-se complexando a partir das relações entre todos os elementos e suas relações.

Em outras palavras, a biosfera é a consequência da vida como “emergente” das suas relações multidimensionais entre todos os elementos que compartem o espaço e o tempo; sejam estes orgânicos, inorgânicos, estruturais, paisagísticos, climáticos ou topográficos, etc.

Fazer Permacultura é pensar e agir sistemicamente; é perceber a complexidade das relações do todo e criar condições, conexões, que permitam que estas se expressem, difundam e prosperem.

Alguma vez falamos que o Permacultor trabalha, no seu dia a dia, alimentando solo e sistematizando água. Fora do contexto permacultural isto pode ser visto como de estrema arrogância: como que nós vamos determinar o quanto, quando e com que o solo vai se alimentar e onde deverá estar a água? No nosso contexto, indica a intensão expressada em atividade diária, de permitir que se estabeleçam as condições mínimas para que o sistema, a nossa paisagem, possa nos prover do que estamos precisando… seja alimento, materiais de construção (fibras vegetais, madeira) água potável, etc. Ou seja permitir que as conexões, as relações existentes entre todos os elementos na nosso entorno possam se manter incólumes a pesar dos nossos impactos locais.

O ser humano é um elemento mais e não está fora da natureza, ainda que isto último e por alguns séculos, fosse a concepção generalizada, expressa no “crescei e dominai”. Somos parte da vida do planeta, que nos dá vida, e como sistema, podemos, facilmente desaparecer, e a vida na terra seguirá.

Então, que elemento é este o “elemento humano?” Podemos dizer que o que nos caracteriza é:

“ser conscientes da nossa consciência”

Com esta qualidade podemos saber o quanto somos responsáveis pelos impactos que produzimos, e quanto isto compromete o futuro da humanidade e do Planeta.

Estava eu conversando com um amigo… e surgiu o seguinte: “Se acabar a lenha que já estoquei… compro mais na cidade”

Visto no contexto do nosso “tradicional” dia a dia, de ser simples consumidores, acharíamos absolutamente aceitável. Mas… ficou uma pulga atrás da minha orelha:

“Claro, no contexto de satisfazer as minhas necessidades

o lógico é comprar mais…”

Mas no contexto ambiental amplo fica claríssimo como, neste agir, não existe nenhuma consciência das conexões e relações implícitas existentes.

Se você consome um recurso que você colhe, neste caso lenha, (mas poderia ser a água, ou uma cenoura, ou um litro de combustível, etc.), você dimensiona e sabe quanto isto custa em energia/esforço/tempo e como deverá ser consumido (limítes ao consumo); e quanto isto tem a ver com a permanência, e o que é mais importante:

“Não é um Recurso Natural, é um Serviço oferecido a você gratuitamente pela natureza”

Na Permacultura se definem três princípios éticos que norteiam as ações do permacultor. Este exemplo serve para compreender o terceiro princípio que se refere ao seguinte:

                    -Limites ao consumo;

                                                                  -Partilha justa;

                                                                                                        -Consumo consciente

O permacultor deverá ser consciente de “como” e “quanto” aproveita e usa os recursos e serviços na sua volta e quais as “conexões” que estes têm com o meio; podendo assim estabelecer uma relação harmônica entre necessidade e permanência. Conhecer e/ou sentir as conexões é a chave para permitir a sua permanência e/ou reestabelecimento.

Esta habilidade é “desenvolvida” e “treinada” na prática do viver a Permacultura. Na foto abaixo, a propriedade do permacultor Remi Beckauser em SC, uma enorme zona 3 para produção de renda.

O Curso de Design em Permacultura (PDC) é um start para atiçar a sensibilidade das pessoas e orientá-las para um caminho de estudo e ação (teoria e prática); que possam se espelhar na ética da Permacultura, como filtro das suas ações e nos princípios de design para a construção dos espaços humanos permanentes; espaços humanos de religação (conexão) com o ambiente.

Na foto abaixo, grupo do PDC 2018 em Yvy Porã.

Por isso falamos que um permacultor que ministra PDC tem um compromisso triplo frente aos ouvintes:

-Clareza e abertura  na leitura dos “contextos”, tanto do espaço, como dos cursantes e dos conteúdos.

Rigor  nos “conceitos” que embasam estes conteúdos.

– E tolerância  e abertura a uma multiplicidade de técnicas/”conteúdos” que possam alavancar a construção dos novos espaços.

O instrutor de PDC deve ter as competências tanto para ser um generalista que aprofunda nos “conceitos”, apoiado nos princípios de design, como um sistêmico que observa holisticamente o seu entorno, tanto na prática permacultural como no curso.

Também por isso falamos que o permacultor, que é instrutor no PDC, deve zelar com rigor pela coerência do curso enquanto à correlação dos conteúdos totais e transmitir o seu dia a dia e a sua prática vivencial.

O PDC não é um acumulado de técnicas chamativas nem uma contestação a um sistema anacrônico. É uma proposta sistêmica e holística para a construção de espaços humanos para a permanência.

O PDC é um curso ministrado por um permacultor, ele é o responsável pela coerência e correlação dos conceitos e conteúdos. Havendo a possibilidade da participação de outros instrutores, é de fundamental importância que exista UMA pessoa responsável, de forma presencial, em todo o período do PDC, o que chamamos de âncora do curso. Ele assegura a coerência,  mantém a linha e estabelece  que as conexões não sejam só uma utopia almejada… senão uma realidade na concretização da expressão:

“Todo está ligado com tudo”.

Versão em PDF Relações e conexões

Autor:

Um casal de permacultores participantes de um projeto coletivo, construindo sua casa, seu espaço e a sustentabilidade..

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