Ecodesenvolvimento e Permacultura

Na postagem de hoje um artigo escrito por Jorge Timmermann, permacultor, biólogo, ecólogo, formado pela Universidade Nacional de Córdoba (Ar). Atuou como pesquisador e docente na  Universidad Nacional de Catamarca, Universidad Provincial de La Rioja. Também trabalhou como coordenador regional no Programa Nacional Algarrobo (desenvolvimento de áreas marginais), pesquisador e entomólogo no combate à doença de Chagas (Univ. Nacional de Córdoba), com participação no Serviço Nacional de Chagas (Gov. Argentino). Permacultor desde 1998, diplomado como Designer e instrutor de PDC por Bill Mollison em 2002. Participou da formação com David Holmgren para permacultores em 2007.Fundador do IPAB, da extinta Rede Brasileira de Permacultura, rede Permear, das estações de Permacultura de Yvy Porã e Waikayu em Santa Catarina.

 

 

Ecodesenvolvimento e Permacultura

Jorge Timmermann

O conceito Ecodesenvolvimento foi cunhado nos anos 70 como resposta ao marco polêmico que existia, entre os que queriam o desenvolvimento a qualquer preço e os ambientalistas. Isto acontecia na primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente em Estocolmo. Maurice Strong propôs este termo. Logo, foi ampliado pelo economista Ignacy Sachs, que o levou a outras dimensões: a econômica, a social, a cultural e a gestão participativa, além da preocupação com o meio ambiente.

Quando conheci a ecologia, nos idos anos 70, a questão fundamental a ser tratada, para resolver os problemas ambientais, era a diminuição imediata e/ou acabar com a “degradação ambiental” e a “poluição”. Estes dois conceitos eram cerne da questão ecológica. Toda a ciência ecológica, sua metodologia e ações eram orientadas a manter o mundo habitável, para nós e para as gerações futuras.

Com o passar dos últimos 50 anos, nunca deixou de me surpreender como os discursos vão mudando e as modas vão puxando os indivíduos para longe do objetivo principal (terminar com a degradação e a poluição) para levar-nos a infindáveis discussões, nos encaminhando para ações que, com muita sorte, serão meros paliativos ou simplesmente nos desorientam do que é realmente importante.

Na década de 1980 (em 1987), a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento – CMMAD, adotou o conceito de Desenvolvimento Sustentável em seu relatório Our Common Future (Nosso Futuro Comum). Nós, os ecólogos de campo, presenciamos estarrecidos como o establishment conseguia um novo triunfo negando o claro, comprometido e proativo conceito de ‘Ecodesenvolvimento” pelo moderno, estético, vago e obscuro “Desenvolvimento Sustentável”.

O que todos entendíamos como um compromisso irredutível, desde o ponto de vista ecológico, era como se deviam desenvolver os projetos ligados ao ambiente, sempre sustentados num tripé metodológico, com seu foco nas questões: ambientais, sociais e econômicas, definidas no Ecodesenvolvimento. Ou seja, com ações que priorizem a conservação ambiental (que reduzam a degradação e evitem a contaminação) que sejam socialmente justas (sem discriminação, segregação e igualando as oportunidades) economicamente viáveis (que gerem benefícios sem destruir o capital natural). Estes pontos claríssimos e inconfundíveis do Ecodesenvolvimento, transformou num obscuro justificar a sustentabilidade de um projeto pela simples sustentabilidade econômica, relegando a questão ambiental e social a um segundo plano ou esquecendo delas.

Passados os anos e salvando as distâncias observo como ainda não abordamos a questão principal com o devido cuidado. Continuamos desenvolvendo a nossa cultura, num contexto finito, provocando degradação e poluição

Fomos induzidos a acreditar que: “sempre os problemas foram criados por outros”. Que são as diferenças políticas, econômicas e/ou as duas juntas “o poder” que são os responsáveis pelo estado calamitoso da nossa gestão ambiental (ecossistemas e humanidade).

Falamos que o maior impacto ambiental (medido em porcentagem planetária de degradação de ecossistemas, perda de solos, erosão genética, etc.) foi provocado nos últimos duzentos anos. Então a culpa é da “revolução industrial”, da “revolução verde”… E se isto não for suficiente apelaremos a culpar os Impérios…

Estes cenários exemplificados, e muitos outros possíveis, são fatores concretos que levam, objetivamente, ao desfecho da crise ambiental; só que a situação atual requer de uma nova abordagem.

O nosso gênero, homo, vem transitando o planeta Terra há milhões de anos. Na sua passagem deixou um rastro permanente de degradação e/ou poluição, é só lembrar-se da salinização dos campos irrigados da mesopotâmia pelos Babilônios; a domesticação de espécies animais e vegetais que reduziu nossa dieta farta e variada a poucas variedades de espécies únicas, em prol da eficiência econômica ou diminuição de esforço com a consequente destruição e degradação de ecossistemas prístinos e criando assentamentos humanos massivos e altamente impactantes; etc.

Assim, o nosso impacto permanente e contínuo, foi se agudizando na medida em que o crescimento populacional acontecia. Há relativamente pouco tempo, algumas décadas, que somos conscientes dos “limites ao crescimento” (livro publicado pelo Club de Roma, 1972); então, já é hora de assumir esta nova realidade (que nossos antecessores não tinham) e começar a agir coerentemente com ela. Este agir é individual, intransferível e cotidiano.

Então, quando conheci à Permacultura (e lá se vão 20 anos), fiquei muito animado ao conhecer o contexto ideológico e ético da proposta da permacultura. Ela nos remete a esta ação individual, com responsabilidade e autonomia.

A sua ideologia é embasada na ecologia, e às vezes falamos que Permacultura é ecologia prática, proativa; seus princípios de ação e sua metodologia promovem, continuamente, a criação de uma cultura humana permanente.

Sua ética reflete fielmente a base do ecodesenvolvimento citadas neste texto.

O cuidado com a Terra e O cuidado com as pessoas responde ao imperativo de não degradar. Assim, nossas atividades de cunho puramente econômico, sem reconhecer o ambiente, e os indivíduos, só fazem tremer as bases ambientais, que são os ecossistemas e as pessoas que o habitam. A degradação dos ecossistemas conleva à degradação humana.

E o terceiro princípio ético, Limites ao consumo e à reprodução, e redistribuição dos excedentes? Considero a poluição ligada intimamente à quantidade, quer dizer: não é só a qualidade de um produto (veneno, adubo, etc.) ou de uma ação (despejar, não tratar, etc.) o que polui; é a quantidade deles que pode afetar de forma irreversível aos ecossistemas. Por isto a questão dos limites é tão clara e importante, nos remete à ações concretas, vivenciadas diariamente por todo e qualquer humano, esteja ele em que contexto estiver. Em relação à redistribuição dos excedentes, estamos frente a questão da igualdade de oportunidades e isto tem a ver com discriminação, exclusão, exploração, e todas as formas injustas de toma de poder.

Citei anteriormente meu entusiasmo, como ecólogo, ao conhecer a Permacultura. Esta alegria me contagiou e levou a abraçar esta ciência, filosofia e prática, por reconhecer que ela trazia respostas concretas à crise civilizatória que vivemos, e o mais interessante, ao alcance das mãos de qualquer pessoa. E o ponto que norteia toda a gama de ações da permacultura na sua concepção e na sua expressa declaração de princípios éticos, responde aos imperativos ecológicos declarados há décadas e nunca bem resolvidos: acabar com a “degradação ambiental” e a “poluição”.

A proposta de solução à crise dada pela permacultura, nos seus princípios éticos e princípios de design, pode reverter atitudes da cultura atual que priorizam o bem estar individual e o ter, que se define em prol de interesses mesquinhos.

Compreendamos o que David Holmgren e Bill Mollison pretenderam com o enunciado dos “Princípios Éticos da Permacultura”, eles propõem com clareza e concretude filtros de ações para que o homo sapiens consiga reverter o processo suicida da humanidade e construir uma cultura permanente; basta ter:

-Cuidado com a Terra

-Cuidado com as Pessoas

-Limites ao consumo e à procriação, e redistribuição dos excedentes.

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3 comentários sobre “Ecodesenvolvimento e Permacultura

  1. Esse texto me fez recordar como é Simples retornar ao essencial e que mais do que falar preciso mesmo é colocar os conceitos em prática no dia-a-dia. Super Agradeço Jorge !!!

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