Uma breve história da Permacultura no Brasil- 1992 a 2007

De tempos em tempos as pessoas nos pedem, como permacultores mais velhos, que contemos a história da permacultura no Brasil. Já demos entrevistas, fizemos breves relatos, mas, desta vez, decidimos sentar e escrever. Não existe relato isento, toda história tem a ver com o olhar e sentimento de quem a viveu. E ainda assim, cada um vive de uma maneira a mesma situação. Então, aqui fazemos apenas um relato daquilo que vivemos, entre os anos 1998 e 2007, de forma mais detalhada.

Em 92, aconteceu no Rio Grande do Sul o primeiro curso de permacultura no Brasil, ministrado por Bill Mollison. Nele se formaram vários permacultores e todos foram estimulados a multiplicar a permacultura no Brasil e no mundo. Destes, os que hoje conhecemos e lembramos por suas atuações públicas por assim dizer, são o Cláudio Sanchotene (fundador do IPERS – primeiro Instituto do Brasil),  Masha Hansi (IPB e depois Epicentro Marizá), Marcos Abrão Cardoso ( livraria e editora Via Sapiens) e o Alano ( sítio Pé na Terra- RS). Nas fotos abaixo, Marcos num estande da livraria e Marsha.


Em 1997 André Soares, que andava há dez anos solto pelo mundo, e que formou-se permacultor na Austrália,  viaja de lá  para o Brasil e faz atividades de difusão da permacultura,  num ensaio, ou “prévias” do Programa Novas Fronteiras do Cooperativismo (PNFC), ao qual ainda não pertence.

André Soares já era permacultor na Austrália, e tinha fundado o Instituto de permacultura de Queensland vários anos antes. André foi acolhido pelo PNFC em 1998 e atuou como coordenador do projeto de Permacultura para Amazônia, e ministrou palestras pelo Brasil. Na foto abaixo, André Soares.

Numa destas palestra/oficina ministrada aqui no sul, em Braço do Norte 1997, Jorge Timmermann conhece André e o PNFC, e pede para trazer a Permacultura para o sul… A resposta é que o PNFC tem como projeto prioritário a Amazônia…
Em dezembro de 1998 se organiza um PDC Internacional em Manaus, promovido pelo PNFC que atua dentro do Ministério da Agricultura. Este PDC foi  ministrado pelo Geoff Lawton, com tradução simultânea de André Soares e o certificado outorgado neste curso foi assinado por Geoff Lawton, Ali Shariff e André Soares. Neste curso – com o patrocínio da Permacultura América Latina (Pal) e seu coordenador, Ali Sharif – se formam mais de 60 permacultores pelo Permaculture Research Institute (PRI) pessoas, entre eles,   Jorge Timmermann e Lucy Legan,  . O projeto de Permacultura do PNFC se encerra em 1999. Na foto abaixo, Ali Shariff

Neste momento a Permacultura era uma coisa nova, e formar institutos era uma estratégia importante, dando respaldo à fala dos permacultores. Assim, aparecem os novos institutos, visto que o IPERS já existia desde 1992. As novas instituições tem vínculo com a PAL,  vão sendo fundados em sequência IPA, IPEC, IPAB, IPEP e OPA. O  Instituto de permacultura da Amazõnia –IPA, que já existia em Manaus (se não nos enganamos, desde 1995) coordenado nesta época por Carlos Muller.

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Em 1999, André Soares, cria o Instituto de permacultura e ecovilas do cerrado – IPEC em Pirenópolis. Jorge Timmermann, em 1998 organiza o primeiro PDC em Santa Catarina, no Colégio Agrícola Caetano Costa, em São José do Cerrito e lá se formam professores, auxiliares e atores locais da comunidade cerritense.  Em 1999, Jorge, junto a Pedro Marcos Ortiz e Jaime Rodrigues , fundam o Instituto de Permacultura Austro Brasileiro (IPAB).

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João Rocket se formou num outro PDC, e por iniciativa e insistência de Ali Shariff saiu da Bionatur (empresa do MST que produz sementes orgânicas)  onde o era mentor e coordenador, para se unir ao movimento Brasileiro de permacultura… João funda o Instituto de permacultura e ecovilas dos pampas -IPEP, junto ao Ali Shariff, em torno do 2000-2001. Nas fotos abaixo, João à esquerda e Sérgio Pamplona, editor da revista Permacultura Brasil.

Assim é plasmada a Rede Brasileira de Permacultura (RBP), que assim conseguia ter um instituto em boa parte dos grandes biomas brasileiros. Esta rede  visava unir institutos de permacultura: IPA, IPEC, IPAB, IPEP e, posteriormente, OPA (Organização permacultura e arte),  com apoio da PAL (permacultura américa Latina).  Fazia parte da RBP ainda a publicação Permacultura Brasil, uma revista  que  editou 16 números, e teve como editor inicialmente Fernando Soares, (números 1 a 6) e posteriormente Nina Rodrigues e Sérgio Pamplona (números 7 a 16).

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Jorge Timmerman, como presidente da RBP organiza, juntamente à parceiros do projeto AgroRede- UFSC, um encontro da RBP em Florianópolis no ano de 2002. Neste encontro, realiza-se uma parte aberta ao público, no auditório do centro de Convivência da UFSC, institutos da RBP apresentaram seus trabalhos e como encerramentos, José A. Lutzemberger fez uma palestra, uma das suas últimas falas públicas.

Passam os anos com atividades várias em PDC’s pelo Brasil. E isso faz com que muitos institutos surjam, IPEMA, IPOEMA, IPCP e grupos com trabalhos por ai. Como frisamos no início deste relato, estamos contando histórias que vivemos mais de perto, o que não quer dizer que outras inciativas não tenham acontecido. Citamos como exemplo de trabalho sério e consistente de Permacultura no âmbito social, o trabalho do Instituto de Permacultura da Bahia, que levou a permacultura aos municípios do semi árido baiano, com o nome de Policultura no semi-árido.

Como membros fundadores da RBP podemos fazer a autocrítica de que ela não soube trabalhar em rede, e nem se integrou aos institutos já existentes no Brasil como IPB e IPERS, e nem com os novos que apareciam, e por isso mesmo, não sobreviveu.

Dentre todos os institutos da RBP, o IPAB trabalhava sem sede própria, mas atuando por demanda, em parceria com prefeituras, universidades, associações de agrícultores e outros.  Na foto abaixo a apostila elaborada em um dos cursos do IPAB, realizado no Sítio Raízes, em São José de Cerrito.

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Em 2003, visto que a RBP estava se convertendo numa nova corporação de Institutos, os diretores do IPAB junto ao seu presidente, Jorge Timmermann, decidem deixar de ser um instituto para ser uma rede de pessoas… É realizada uma série de reuniões com o foco no aprofundamento de estudos, formação de professores e troca de experiências entre permacultores praticantes. Assim se extingue o IPAB e nasce a Rede Permear.

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A Permear se propunha a ser uma rede de pessoas, buscando aprendizagem, trocas de experiências, com toda uma dinâmica própria , leve, auto-gerida. Nunca pretendeu ser uma instituição formal, nem mesmo uma ONG. Em alguns momentos se discutiu se era uma rede de amigos, ou se pretendia ser uma organização de outro tipo. A opção foi o de seguir sendo uma rede de amigos que compartilhavam experiências permaculturais. Chegou-se a ter reuniões e encontros de estudos anuais, e neles podiam ser apresentados novos membros, todos, sempre, com no mínimo dois anos de prática em permacultura. A Permear, como qualquer grupo, se estruturava na realização de projetos comuns, como cursos de discussão e estudo sobre ser educador, ou aprofundamentos de como trabalhar o PDC, ou a elaboração do número zero da revista Permear (que por falta de patrocínio, ficou apenas neste exemplar).

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Um grande projeto da Permear foi organizar a vinda ao Brasil de um dos fundadores da Permacultura, que aconteceu em 2007. David Holmgren e sua companheira Su Dennet chegam ao Brasil para uma série de eventos. David ministrou 3 cursos para permacultores: um em Florianópolis, outro em São Paulo e outro no Distrito Federal, nestes locais e na Bahia realizou ainda palestras abertas ao público. A vinda de David ao Brasil coincidiu com a Convergência Mundial de Permacultura, organizada pela PAL e IPEC. Na foto acima, nosso momento tietagem: David em nossa casa durante o curso em Florianópolis.

A Permear cresceu, talvez demais, ou rápido demais, perdendo a identidade, e praticamente desapareceu. Hoje, os fundadores da Permear, na sua grande maioria, seguem como aquele grupo de amigos, que continuam se encontrando, trocando, compartilhando saberes experiências. Nos encontros da Permear, a foto “Onde está Wally” era o registro do bom humor reinante nos eventos, como esta no Sítio Curupira.

Um termo que a Permear usava foi o de Estações de Permacultura, ou seja, um lugar para ESTAR, para PERMEAR, para permaculturizar e viver a permacultura. E a grande alegria, de quem viveu esta história, desde 1998, ou seja há vinte anos, é que muitos dos permacultores amigos, tem se dedicado a construir suas estações de permacultura, mostrando o tamanho da permacultura que uma pessoa pode fazer. E graças à revolução da tecnologias da informação, blogs, redes sociais, etc, muito destas experiências podem ser compartilhadas, para mostrar às novas gerações que é possível viver A permacultura, e não a fantasia de viver DA permacultura. Construam seus espaços, VOCÊ TAMBÉM PODE.

 

PS. Obviamente neste artigo faltam fotos, nomes, etc, etc. Pedimos desculpas por isto e agradecemos se alguém tiver fotos, que nos envie, Publicaremos com créditos.

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8 comentários sobre “Uma breve história da Permacultura no Brasil- 1992 a 2007

  1. As revistas ” Permacultura Brasil” são uma verdadeira enciclopédia, tem muita coisa boa escrita e bem organizada. Adorei folhear quando fomos na formação em Yvy, história no chão desses Permacultores. Sinto que mesmo que as redes não estejam tão bem conectadas coletivamente , há um despertar “invisível”, uma lucidez coletiva. Suzana e Jorge guardiões dessa caminhada, sigam escrevendo e compartilhando esses saberes. Vida longa!

  2. Que venham os próximos 20 anos vossos na permacultura e os próximos 26 anos de permacultura no Brasil, com muitas pessoas, muitas boas formações e trocas, com mais revistas e partilhas lindas como esta!
    Tamo junto!

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