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Verduras orgânicas: fazendo a ponte entre produtores e consumidores

A segurança alimentar é uma das propostas de base da permacultura. Segurança alimentar é comer bem, um alimento saudável. Quando se fala em cuidar das pessoas e cuidar do planeta, pressupõe-se que o cultivo de alimentos é integral, orgânico, ecológico, livres de agrotóxicos e pesticidas. Ou seja, é o cuidado fundamental para com as pessoas. Em geral, gente que vive no contexto urbano tem dificuldade de produzir , achar ou comprar o alimento orgânico, tendo que buscar um entreposto de alimentos naturais, ou nas grandes redes de supermercado, por vezes a preços um tanto quanto abusivos.

Um dos caminhos sempre sonhados quando se fala em sustentabilidade é unir as duas pontas desta cadeia: consumidores e produtores, fazendo com que um e outro se conheçam, se encontrem. Ou seja, acreditamos que o maior “selo” de qualidade e certificação é a relação direta entre quem compra e quem vende, o comprador sabendo de onde vem produto que o “fulano produz”, e nesta confiança se faça um reconhecimento e, por que não, uma amizade.

Nós, permacultores, acabamos formando uma bela rede, embora muitos ainda vivam mais no meio urbano, temos grande permacultores já no campo, gente com história de família de produtores rurais. Jorge e eu, Suzana, transitamos há muitos anos entre estes dois pólos, com muitos amigos produtores, permacultores, que vem se organizando e  vendendo seus produtos. Como agentes urbanos, acabamos falando com amigos e vendendo alguns produtos permaculturais entre os amigos urbanos, como o suco de uva do sítio Raízes, por exemplo. Na foto abaixo, Elena e a produção de uvas orgânicas. Nas palavras do Pedro Marcos  ” produzir e comercializar com respeito e ética é que nos dá energia para continuar nesse processo bonito de interação entre produtor X consumidor e principalmente a participação dos consumidores acompanhando a produção no local e construindo um tecido saudável de relações e confiança.Essa atividade fortalece o sonho de dias melhores no meio rural, dando novamente esperança aos verdadeiros produtores de alimentos. Vendo nossa filha Elena crescendo em nosso sítio, com nossos  familiares e amigos podendo consumir alimentos limpos e com princípios de produção, isso nos deixa muito felizes e de consiência leve pois servimos ou comercializamos os mesmos produtos que consumimos com nossos familiares.”

Em outro momento da nossa história já fizemos uma tentativa de organizarmos um grupo para compra de cestas de verduras diretamente dos agricultores ecológicos, foi uma experiência legal, mas acabou esbarrando na logística. Agora, depois do PDC de Yvy Porã, quando Pedro Marcos, Iran e Renan, permacultores de São José do Cerrito, trouxeram todas as verduras para o curso, soubemos que eles estavam entregando para um atacadista aqui em Floripa… A pergunta imediata foi “vamos agilizar isto diretamente entre produtores e consumidores?”, Iran, sempre disposto e alegre topou na hora!

Ele é um dos organizadores de uma cooperativa chamada Orgânicos Serrano que reúne produtos de diversos sítios no planalto catarinense, começamos uma nova experiência,  de compra direta dos produtores. Esta experiência seria um laboratório, por tempo limitado, pois no inverno a produção serrana diminui pelo frio, mas que quermos retomar na primavera. Conversamos e centralizamos o ponto de chegada das verduras na nossa casa, e daí levamos para a escola, onde os consumidores pegariam as suas compras. Na foto abaixo os agricultores preparando as abóboras para a venda. Iran, de camiseta verde, à esquerda e Renan de camiseta azul.

Bem, uma parte do processo estava amarrada: as verduras e a chegada desta a Florianópolis, a nossa parte agora era achar os consumidores e combinar com eles onde entregar as verduras. Convidei para a experiência, meus colegas de trabalho na Escola Autonomia, um grupo pequeno, só do fundamental 2, pois um dos combinados com os moços era “devagar e sempre”, obedecendo um dos princípios da permacultura “soluções pequenas e lentas”. Pensei nos meus colegas, pois além de serem educadores, todos envolvidos em consumo consciente, facilitaria pois receberiam as cestas com suas compras na escola. Mas a rotina da vida de cada um não é bem assim…

Estamos mal acostumados a ir na hora que queremos ao supermercado, e ter as coisas nas prateleiras. Uma opção por uma compra que vai me pegar na saída do trabalho, correndo, e outros empecilhos  compreensíveis, quase inviabilizou o projeto… Nos primeiros dias, tínhamos apenas 2 compradores, e o número mínimo estipulado era de 5 compras. Com uma forçadinha aqui, um convite mais insistente ali, tirando as pessoas da sua zona de conforto e ousando fazer o diferente, conseguimos as 5 compras! Bom, resolvido! A partir da primeira compra eu, Suzana, tinha a absoluta certeza de que a coisa seguiria, pois as verduras dos meninos são deliciosas, enormes, e fariam a propaganda por sí mesmas.

E assim foi! A surpresa das pessoas, os comentários sobre o sabor, o tamanho, a diferença e, para a surpresa de muitos os preços, super justos, e em geral muito mais barato do que no mercado fez com que a idéia começasse a ser falada na sala dos professores, e as pessoas começaram a se dispor a experimentar. Ao chegar em casa com nossa cesta, nossa filha  e a Rafa que tinham decidido fazer panquecas, passaram no super e compraram salsa orgânica, 100 gramas a R$2,50, o mesmo valor que as 500gramas que os meninos fornecem, ambas na foto abaixo.


Nas palavras da Susele, uma das consumidoras ” Estou achando muito interessante comprar verduras sem agrotóxicos direto do produtor, além de lindas e saborosas, me agrada muito a idéia da compra direta de quem as produz: eliminar o atravessador! Também, retornei a uma antiga prática a das conservas, comecei com as cebolas…To curtindo muito!”. Na foto abaixo, as compras da Susele e o pote de cebolas em conserva feitas por ela.

Estamos no começo, a caminho de estabelecer a rotina, que é toda feita por mail: no fim da semana chega a lista dos produtos e os respectivos preços. Cada um tem até um horário x na véspera da entrega para enviar seu pedido. No dia da entrega já vem a cesta de cada um, com sua conta e os dados para o depósito bancário, diretamente para Iran e Renan. A entrega é feita em nossa casa, e daí levamos para a escola, onde cada um pega sua caixa cheia.

Como todo processo novo, existem desencontros,  mas o que vale é o iniciar,  provar que é possível fazer o diferente, fazer a diferença, comer bem, viver bem… Quanto tempo irá funcionar? Não sabemos, e nem queremos que isto fique grande demais… Queremos sim é mostrar que saindo da nossa zona de conforto, encontramos pessoas dispostas, se todos nós nos dispomos a experimentar, e se cada um tiver a disponibilidade de doar um pouquinho do seu tempo e costurar encontros podemos fazer coisas bem legais… Como diz uma das máximas nossas “você também pode” !

Então, que tal buscar um produtor orgânico e estabelecer a ponte você também?

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8 comentários em “Verduras orgânicas: fazendo a ponte entre produtores e consumidores

  1. OI Suzana!! já tem um pessoal que faz isto em floripa, você deve saber, mas te encaminhei por e-mail como funciona o processo, só que não com essa mesma frequência que vc ta fazendo! e será que eles não podem também passar por aqui em Balneário? posso conversar com um pessoal aqui e tentar mobilizar!

    • O pessoal faz a compra coletiva, que é uma coisa bem legal mesmo… A grande ideia é coisas locais, pequenas, um a um… Se uma pessoa produzir comida para outros 10, teremos que 10% da população abastece a todos os outros… Simples, não é?

  2. lidar com a barreira do conforto é realmente dificil, parabens!

  3. Nossa menina que frutos lindos.
    Parabéns…

  4. Parabéns, muito lindo. Lá em casa não temos terreno para plantar, então minha mama sábia que é, começou a plantar em caixas de isopor, aquelas que vem com peixe para os restaurantes de comida japonesa, a horta dela é um verdadeiro sucesso, temos 10 caixas (uma do lado da outra), lá cultivamos, alface de vários tipos, pimenta, salsinha, quiabo, jiló, cenoura, repolho, acelga, feijão e para a nossa alegria, plantamos e colhemos uma linda melancia, aos olhos humanos todos achavam impossível, provamos que quando se tem vontade, não há barreiras.
    Um grande abraço e parabéns, caso queira, tenho fotos para enviar da horta e assim poder ajudar quem não tem espaço.

  5. […] arrumar a casa Mãe, cortar a grama, preparar cardápios, mobilizar outros permacultores, como o Iran, da cooperativa Orgânicos Serrano, que vai fornecer as verduras e legumes, faz parte de todo o […]

  6. Boa tarde, sou nutricionista e desejo criar um grupo de compras direto do produtor no município de Divinópolis/MG. Gostaria de pedir um passo a passo ou até mesmo um pouco de sua experiencia para fundamentar a minha. Muito obrigada! 🙂

    • Ana nossas experiências partem de relações entre pessoas: conhecer os produtores e devagar, aproximar as pessoas que querem consumir comida limpa e saudável. O que eu te diria, é começar pequeno, um passinho de cada vez e com poucas pessoas: afinal o pequeno é mais efetivo.

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