A geodésica- problemas, soluções e acabamentos

A geodésica de bambu que é a oficina da casa da Montanha foi feita em setembro de 2009, e o reboco de barro e palha acabou em novembro daquele mesmo ano. A nossa expectativa era de que esta espécie de cafitice (cal + fibras naturais + terra + cimento) fosse o suficiente para segurar as águas. Bem, não foi, com chuva pingava dentro da oficina! Assim ela ficou um bom tempo coberta com lonas de plástico preto, enquanto tínhamos outras prioridades na casa. O tempo passou e um belo dia descobrimos uma imensa rachadura na parede de tijolos que é a base da geodésica…

O diagnóstico foi dramático: água! Como assim? Sim, água sobre os alicerces.  A foto abaixo ilustra bem o que aconteceu… Vejam o caminho das águas diretamente sobre as paredes do alicerce.

Uma geodésica não é uma construção tradicional… Pela sua forma, ela joga aos seus pés, ou seja, sobre seus alicerces TODA a água que cai sobre ela… Assim, toda a chuva foi jogada sobre os alicerces feitos de super adobe. O super adobe mesmo rebocado inchou, ficou como uma gelatina… cedeu e esta foi a causa da rachadura na parede.

Um dos principais cuidados ao se construir com terra, seja cob, adobe, super adobe, pau-a-pique, etc é ter beirais grandes para evitar que a chuva chegue às paredes. Brinca-se que o segredo para construir com terra é pés calçados (bons alicerces) isolando as paredes das águas que vem por baixo, e um bom chapéu (um telhado grande, com bons beirais) para resguardar das águas que vem por cima. Bem, uma geodésica não tem beirais… Nesta foto o detalhe do super-adobe inchado!

Sabíamos disto desde o início e haviam planos de se colocar rufos, jogando as águas para longe das paredes e do alicerce, mas imaginamos que poderíamos esperar alguns meses em que trabalhamos em outras coisas…. Não podia! Como todos permacultor pensa: aproveite os erros para aprender. Resultado: colocamos os rufos, rebocamos os alicerces criando uma inclinação para que a água que porventura chegasse ali escorresse  rapidamente, arrumamos a trinca e … esperamos dois longos meses, observando dia-a-dia, para ver se a estrutura se estabilizava. A boa notícia é que estabilizou! Ufa! Neste foto Jorge colocando os rufos debaixo de chuva, para variar!

Ou seja, quem sonha em construir geodésicas mais permanentes lembre-se de cuidar das águas que vem de cima, pois sua forma joga, PERIGOSAMENTE, todas as águas sobre seus alicerces. Ee isto é grave, pois pode por a perder toda a obra! Não deixe para depois, cuide disto logo que possível!

Os rufos são peças de metal, que levarão as águas para onde se deseja. Na foto abaixo foto de outra perspectiva na  colocação destas peças na oficina. Elas foram fixadas com pregos e coladas com silicone. Na hora de fazer o reboco ele ajudará a fixar ainda mais esta peça.

Então, agora, depois desta experiência fizemos o reboco final, cobrindo a oficina. Fizemos muitas provas de reboco  buscando os rebocos naturais, mas sabendo que não é a condição de um reboco de uma parede, mas sim de um telhado… Fizemos provas com polvilho, leite, linhaça e tudo o que se fala  observamos sabendo que esta camada ficará exposta a sol e chuva. Na foto abaixo uma parte das provas colocadas sobre a geodésica.

Nenhuma destas receitas funcionou. Então, pelo medo de perder ou comprometer esta obra,  decidimos fazer o reboco mais tradicional, que foi a prova que melhor aguentou:

5 partes de areia

1 parte de cimento

1 parte de serragem deixada de molho 24 horas

Veda reboco – resinas vegetais naturais (segundo as instruções de uso)- isto é uma MARCA VEDAREBOCO é uma marca de impermeabilizantes de cimento. A escolha desta marca se deve a que foi o único fabricante de produtos desta natureza que nos responderam ao mail questionando sobre a natureza, poluição, etc do seu produto. Eles nos mandaram a certificação e  os laudos de universidades públicas sobre a certificação do produto quanto a  fabricação e propriedades.

Na foto abaixo seu Zé colocando o reboco sobre a camada de calfetice.

Bem, assim, neste junho, ainda um tanto chuvoso seu Zé e Rodrigo fizeram o reboco da nossa oficina,  num trabalho de esforço e equilíbrio. Como mostra a foto abaixo, o reboco foi devagar cobrindo a estrutura.

Com a prática e a boa mão de pedreito experiente, a geodésica volta a aparecer sob o sol, sob chuva e desvendando-se aos nossos olhos sem o plástico preto  que protegia da chuva. Na foto abaixo o detalhe da pingadeira na entrada, levando a água para longe do alicerce.

Talvez o preto também simbolizasse nestes dias o nosso medo de que toda a obra da oficina tivesse que ser desfeita…

Mas ao que tudo indica, ela seguirá de pé! Agora é seguir acompanhando as evoluções desta linda estrutura…

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7 comentários sobre “A geodésica- problemas, soluções e acabamentos

  1. Parabéns pelo site, acho muito importante que existam pessaos como vocês, dispostas a compartilhar suas experiências. Visito o site com alguma frequência, sempre em busca de novas informações.

    Só posso agradecer, OBRIGADO.

    Ps. Adoro seu trabalho de marcenaria.

    Abraços a todos….Daniel

  2. Ótimo ver esse tipo de conhecimento sendo divulgado cada vez mais. Bom gosto .. adoro formas geodésicas e acho que esse espirito de tentativa erro chega a qualquer acerto. Seguir de pé firme!
    Parabens.

    • Oi, Adelina
      O revestimento que fizemos na época não era o verdadeiro calfitice.
      Mas ainda não existe um bom revestimento, ecológico e impermeável, para terra em estruturas horizontais.
      Nas nossas regiões chove demais, são meses a fio chovendo com medias de mais de 1800 mm/ano.
      A estrutura de bambu trabalhou, não conseguimos o isolamento hidráulico na região em que a geodésica é uma superfície horizontal e a água fez o seu trabalho.
      Em superfícies verticais (paredes) o isolamento hidráulico é fácil de resolver e fica perfeito.
      Espero ter clarificado as tuas dúvidas.
      Abraço.
      Jorge

  3. Olá. Interessante o uso da serragem. Acha possível utilizar o calfitice com serragem para rebocar paredes verticais de pau-a-pique (no lugar do tradicional sisal, mais comum no norte do país)? Também pensei nas folhas de bambu, material que já tenho na propriedade! Parabéns pelos trabalhos.

    • Oi, André
      A função do sisal na massa é criar uma unidade de fibras que segurem os esforços de tração; assim evitam-se rachaduras.
      A serragem da muita elasticidade à massa, mas pouca fibra.
      As folhas de bambu darão uma boa fibra para o reboco. Coloque estas em camadas de barro e camadas de folhas.
      Grande abraço.
      Jorge

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