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A Casa da Montanha: compartilhando saberes e vida!

A construção da Casa da Montanha, além de um projeto pessoal de Suzana e Jorge, inserido no contexto maior de Yvy Porã. também teve, desde sempre, a ambição de ser um lugar de aprendizado, acolhimento e de compartilhamento de ideias.

Isto foi um desejo que acontecesse com todos, mas principalmente com as novas gerações: que o nosso processo de construção servisse de  “laboratório”, de inspiração para que as novas gerações seguissem vendo opções para construir soluções à crise. Mas não numa vivência de modelo fixo tipo:  “olhem como nós fizemos e façam…”, mas como espaço para diálogo, aceitando  sugestões, idéias, viabilizando projetos, ousadias, num processo ensino/ aprendizagem constante. Assim foi o construir a casa, recebendo estagiários, ou mesmo a proposta de construção da oficina com o Daniel Malaguti, ou o livro de Tcc da Silvia Pugley de Curitiba… Todas ações de parceria importante neste diálogo entre pessoas diferentes…

A pioneira deste processo foi Cecília Lenzi, que nos acompanha desde os alicerces da casa, e com quem sempre tivemos a pacto claro de “aproprie-se deste processo”, use-o como fonte de inspiração, de reflexão e diálogo entre seu caminho acadêmico e a prática feita aqui… Muitos frutos vieram desta vivência, como a publicação em congressos de construção alternativa e o estudo sobre o conforto térmico da Casa da Montanha, publicado aqui,  e também o projeto de reforma da Casa Mãe…

Mas o maior deles , para nós, Suzana e Jorge, foi ver o desabrochar e crescer de uma profissional séria, competente e que muito ainda fará como permacultora e arquiteta. Agora, Cecília chega ao final da sua graduação, e como início da reflexão no seu Caderno 1 do TCC, ganhamos outro presente, que é o texto reflexivo sobre o que foi Yvy Porã neste caminhar! E este é o texto que se segue!



“Toca-se com as mãos a idéia”– uma reflexão

Por Cecília Lenzi

Vivi uma experiência extra-graduação (da qual a graduação morreria de ciúmes se soubesse) que durou três anos. Participei da construção da Casa da Montanha, dos permacultores Jorge Timmermann e Suzana Maringoni na Estação de Permacultura Yvy Porã. A primeira coluna foi plantada em dezembro de 2006 e na presente data, dezembro de 2009, a obra está na etapa de acabamentos.
O que fiz em Yvy Porã durante estes três anos foi, precocemente, viver a síntese de tudo isso, que me dou conta só agora.
Foi uma experiência de desalienação pela união do fazer e do pensar : durante as noites em que ficávamos tentando resolver, por desenhos no quadro negro, modelos no sketchup, ou as tão utilizadas imagens mentais, as estratégias de encaixes dos caibros ou de organização no canteiro que seriam tomadas na obra na manhã seguinte (as vezes até tirando o sono do mestre de obras).
Foi a desalienação pela união do homem com a natureza que o circunda: os eucaliptos de trinta anos colhidos na entrada da propriedade, cortados pelos profissionais locais, e o toque dado por eles: não valeria a pena trocar o serviço de desdobramento da madeira por tábuas, porque aquela madeira era boa demais e em lugar nenhum encontraríamos eucalipto tão duro; a chuva, que com o vento “encanado” pelo vale ao sul do sítio passava ao lado da casa, a poucos metros, mas deixando a casa intacta, protegida pela zona 5; a terra sob nossos pés que se fez entender quando foi para as paredes na forma de taipa de pilão.
Foi o próprio pensar e fazer ecológico; o céu estrelado, ao redor da fogueira, o vinho argentino (ou chileno), foram todos acompanhantes das reflexões tão lúcidas, das discussões que viravam o pensamento de ponta-cabeça, das revisões de pré-conceitos que davam voltas e voltavam sempre ao mesmo ponto:
a totalidade, o equilíbrio maior, o quanto tudo é simples quando temos as ferramentas certas, ou seja, quando temos lucidez de até onde pode-se ir; em síntese, quando temos como ferramenta a ética.

Ernst Friedrich Schumacher (1922-1977) escreve o livro Small is Beautiful em 1973, com tradução para o português como O Negócio é Ser Pequeno – um estudo de economia que leva em conta as pessoas. Neste livro Schumacher procura soluções. Investiga o foco do problema da produção no sistema atual, busca contradições, prova sua tese da insustentabilidade da economia moderna, fala sobre os hábitos cotidianos.Mas ele mantém uma constante em seu texto: ao falar de economia, fala das características humanas, fala das pessoas que fazem a economia ser como é.
E qual é a minha tese? Simplesmente, que a nossa tarefa de maior importância consiste em nos desviar de nossa atual rota de colisão. E a quem incumbe esta tarefa? Creio que a todos nós, velhos e jovens, poderosos e desvalidos, ricos e pobres, influentes e insignificantes. Falar sobre o futuro só é útil se levar à ação agora. E o que podemos fazer agora, enquanto ainda estamos em condições de afirmar que a vida ‘nunca foi tão boa’? Para dizer o mínimo – e já é dizer muito – cumpre-nos entender perfeitamente o problema e começar a ver a possibilidade de criar um novo estilo de vida, dotado de novos  métodos de produção e novos padrões de consumo; um estilo de vida planejado para ser permanente.
(Schumacher, p.18)
Este livro de Schumacher foi uma das bibliografias básicas utilizadas por Bill Mollison e David Holmgren, que na década de 1970 cunharam o termo Permacultura e iniciaram a divulgação destas idéias na prática.

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