Inserindo-se na comunidade

A opção de construir um espaço coletivo, ou uma eco-vila em muitos momentos cai na ilusão de uma “ilha entre iguais”, todos com modos de agir e pensar no mínimo muito semelhante.Mas até que ponto isto é real? até que ponto este “ideal” não está idealizado demais? Até que ponto é possível, desejável, éticamente correto se chegar nos lugares achando que temos a “verdade para salvar o planeta”? E as pessoas que estão ali, o que sentem? O que pensam? O que vivem? O que sabem? O que acham elas de tudo isso?

Este tem sido mais um desafio vivido por nós em Yvy Porã: chegar a São Pedro de Alcântara e ir-nos inserindo nesta comunidade, ouvindo mais, falando menos e devagarinho mostrando que fazemos coisas estranhas…

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Foto da praça de São Pedro de Alcântara

Ouvir é fundamental…

Do prefeito Ernei ouvimos uma vez: ” os sitiantes vem aqui, não compram nada na cidade, pois trazem tudo de Florianópolis e deixam o seu lixo”… Puxa, que verdade! A partir daí não deixamos mais o lixo ali e passamos a comprar coisas na comunidade, como materiais de construção, manteiga do vizinho, queijo, e a contratar o pessoal local para qualquer tarefa necessária.

Depois, recebendo a visita da família do José Eugênio, passeamos e mostramos o que fazíamos, as frutíferas plantadas ouvimos “Nossa, vocês não vem aqui só para dormir, vocês trabalham!”… Outra visão do sitiante que nem imaginávamos existir e que íamos deitando por terra!

Neste final de semana, como o tempo constinuasse chuvoso e trabalhar em Yvy estava impossível, fomos à festa de Santa Filomena- bairro de São Pedro de Alcântara onde se localiza Yvy Porã. Na festa haviam umas 350 pessoas, com churrasco, galinha recheada, leilão de bolos para ajudar a paróquia, etc. Fomos recebidos pelos conhecidos com um entrusiamos e uma festa incomum! E neste clima de acolhimento fui apresentada pela D. Herna, esposa do Seu Walmor, como “minha futura vizinha”… Vejam que estamos lá há 4 anos, e apenas agora, quando passamos a interagir como pessoas do local, somos reconhecidos como “futuro vizinho”… Ou seja, alguém que vem morar aqui!

Bom, isto alimenta e se encaixa na recorrente discussão em listas e fóruns de permacultura com a questão de como levar a permacultura às comunidades, como fazer para que a permacultura seja democrática e chegue a quem precisa? O termo “desenvolvimento endógeno” vem do processo de desenvolvimento de dentro… Quer dizer, sai do modelito “veja, eu tenho algo a propor a esta comunidade, pois afinal eu sou o permacultor que estudou e sei o que é desenvolvimento e como se faz” e propõe um diálogo/ vivência:
– O que esta comunidade quer?
– O que VOCÊS acham que precisam?
Isto é difícil!
Primeiro por que os profissionais ( nós, urbanos) achamos nossa cultura melhor que a dos outros, temos uma IMENSA dificuldade em ouvir, outra maior ainda em admitir que nossas idéias não são as melhores! Poucas vezes conseguimos admitir facilmente que não somos fundamentais e poucas vezes sabemos ver a sabedoria local…

Aí as lições vem de pessoas especiais! David Holmgren (co-fundador da Permacultura) contou uma história SUPER ilustrativa do que é estar num espaço e dele fazer parte…Construindo a ecovila na VIDA…

Na foto abaixo a familia de David e Su, com o filho Oliver.

david-family.jpg
Ele e Su, escolheram viver numa cidade de 20000 habitantes, a maioria na área rural e lá estão. Melliodora, seu sítio, está ao lado de uma parque da cidade e já há mais de 15 anos ele e um vizinho cuidam das águas deste parque. David conta que este vizinho não tem posturas políticas e pessoais em nada parecidas com ele, mas que ambos, embora diferentes, trabalham há anos ali, cuidando do espaço. Recentemente o tal vizinho “descobriu” que David era alguém importante, com livros escritos sobre “alguma coisa chamada permacultura”- ou seja, descobriu que seu parceiro no parque era famoso… E perguntou ao David o que era isso? E ele respondeu “nada não, é isso que a gente vem fazendo juntos há 15 anos”… E seguiram assim…Sem alarde, sem foguetes, sem um Ego feliz por ter sido reconhecido…
Quer dizer, escolher estar numa cidade e viver, conversar, negociar, trabalhar com seus iguais, ainda que pensem diferente é construir a sustentabilidade, deixando de ser EGOlogista, e sendo pessoa!

Uma possibilidade de se fazer ecovilas é ir morar em pequenas cidades, estar ali, relacionar-se com o local e VIVER BEM! Respeitando cada um destes espaços, as pessoas e fazendo diferença pelo modelo e não pelo discurso!

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2 comentários sobre “Inserindo-se na comunidade

  1. Achei muito interessante a sua colocação, e faz sentido interagir com todos os vizinho do sítio, e não só ficar na sua propriendade isolado de todos. Moramos em uma propriedade com 2.5 hetar faz quase dois anos, nos quais quase 2 hetar ainda é de mata com mais 60 anos, como vamos trabalha todos os dias no centro os meus vizinhos além de achar estranho (deixar de morar no centro para morar tao longe num sítio. 7km, rsrsrsr) nos consideram como sitiantes. Mas mesmo assim, sem ainda ter o PDC, (Algo que pretendo fazer) temos fossa séptica, levo o lixo para ao centro, não uso qualquer tipo de adubo químico ou veneno, compro queijos, leite, feijão, dos vizinhos… Mas uma Eco-villa é muito interessante, e até serveria de exemplo, não concordam?

    José Luiz e Andréia, cabeleireiros, cidade de São Ludgero – SC,
    Saúde, Paz e Harmonia
    Abraços!

  2. Eu imagino que muito se aprende quando vivemos em comunidade porque precisamos educar o nosso ego e pensar coletivamente, mas, ao mesmo tempo, temos nossa experiência de vida em diferentes tradições; então, o mais importante disso tudo é sermos altruístas e respeitarmos uns aos outros. É fundamental aprendermos a trabalhar em equipe…

    Muita Luz ‘procês’.

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