Arquivo para Agosto, 2007

Pequenos mutirões espontâneos

Os dias passam, as pessoas vem e vamos seguindo, levantando nossas paredes!

Cecília, nossa parceira, futura arquiteta, voltou da Argentina, onde foi estudar por um semestre. E estava louca para voltar à Yvy Porã, levantar paredes! Quando ela saiu, em fevereiro, havia experimentado a primeira forma… Nem deu tempo para ver o que havia acontecido, as rachaduras, etc. Acompanhou tudo apenas por fotos, mails e pelo Blog!

Assim, fomos para Yvy, e a moça pegou firme no batente! Suzana fazia as msituras, preparando o solo, e ela, praticamente sozinha, socou uma forma inteira! E o orgulho, depois do trabalho, foi tirar a forma e ver como ficou!

cicajo.jpg

Muitos outros amigos vem e vão, no caminho de partilhar, trabalhar, aprender, rir, tomar um vinho, estar na fogueira, ouvir e contar histórias! Partilhando a vida!

Neste final de semana estávamos em seis: Cecilia e André, Walfrido e Renata ( jovens permacultores de Curitiba) , Suzana e Jorge. Na foto abaixo, Cecília, Renata e Jorge colocam a forma na parede. André e Walfrido preparam o pilar central para receber outro “raio” para fixar o pilar levantado na semana passada.

im004151.jpgAssim, aproveitamos as muitas mãos, e levantamos as madeiras dos batentes da porta da lavanderia. Novamente a “novela” das madeiras nem sempre retas, que precisam de sarrafos e tirantes de arame para dar o prumo, alinhar nas pedras, etc… Nesta parede, entre a porta e o pilar, sobrava um vão de 1,60m… Demais para uma forma! Avaliamos que as paredes mais curtas tem grandes vantagens sobre as mais compridas: a retração do solo é menor em proporção ao comprimento, o esforço para colocar cada forma mais simples, paredes criam menos “barrigas”, pois o trecho socado é mais curto…Decidimos então colocar outra madeira estrutural e fazer paredes mais estreitas- o que ainda possibilitará a colocação de estantes neste espaço, fixadas às madeiras..

Durante a semana Jorge havia lixado as madeiras e tratado-as com óleo de linhaça e querosene. O eucalipto ficou lindo! Meio avermelhado, com cara de “casa quase pronta”…

im004174.jpg

Como uma lixa e um óleo deixam a madeira linda! Nesta foto, Cecília e Jorge assentando os batentes da porta da lavanderia, já com as madeiras e arames que ajudam a desempenar as madeiras. Agora temos outra parede pronta para ser socada! É a nossa quinta parede… Puxa, devagarinho vamos andando!

Deixe um comentário

Colocando os caibros do telhado

Nossa casa tem a forma de um octógono, e assim, o telhado se encontra no centro da casa e dali saem os caibros que irão apoiar-se em cada pilar.

Há algum tempo conversamos sobre a possibilidade “maluca” de fazer a casa em gomos. Quer dizer, levantar as paredes e colocar o teto aos poucos… Como gomos de uma laranja!

Gomos? Telhado aos poucos? Como assim? Estamos totalmente loucos?

Bem, mais ou menos! Como os tais gomos chegam ao telhado na forma de um triângulo, apoiados no meio, acabam formando uma estrutura rígida, quase independente uma da outra. Quer dizer, estruturalmente não há nenhum motivo que impessa esta proposta pouco comum…

im004118.jpg

Na foto acima nosso “primeiro gomo” com as madeiras do telhado. Em primeiro plano pode-se observar algumas frutíferas da zona dois da casa e os caminhos roçados.

Mas por quê tal idéia? O que nos levaria a adotar tal encaminhamento? Uma das nossas propostas é mostrar como cada um pode fazer sua casa, passo a passo, para isto, receber pessoas que queiram ver como é e compartilhar seu tempo e seu trabalho conosco. Ainda que meio estranho, a proposta é quem venha estagiar consiga “ver” e fazer os alicerces, as paredes e o telhado!

Outro motivo para isto é a proteção das chuvas, ou seja, ir cobrindo nossas paredes de terra das intempéries. Até aqui elas estão sendo protegidas por lonas pretas, mas o desejo do “teto” é premente!

Inicialmente pensamos em cobrir com CALFITICE (abreviatura em espanhol de CAL + FIbras naturais + TIerra+ CEmento), uma mistura que sobre uma base de bareques de bambu, faz um solocimento na cobertura. Mas algumas limitações nos levaram a rever tal proposta e decidir por telhas de Tetra Pack recicladas.

Bom, na semana que passou, Jorge iniciou a colocação dos caibros do telhado. Os caibros de 5 x 15cm chegam ao pilar central e ali tivemos um problema:

Como 24 caibros de 5 cm de largura se encaicam num pilar de 21cm de diâmetro? Lembrando perímetro é igual a (2x PI xr raio) quer dizer 2 x 3,14,16 x 10,5 = 65 cm

os caibros são 16 x 5 = 80 cm…

Novamente a Matemática nos aponta problemas!

im004079.jpg

Bom, mas são oportunidades para pensar… A solução foi fazer um grande “sol” de uma placa de chapa de ferro de 3mm, de 26cm de diâmetro, com 24 esperas para “segurar” cada caibro que chega ao centro. Esta placa tem 4 parafusos fixos no poste central e dois em cada caibro ( um deles passante, de lado a lado, preso com porcas e o outro de rosca soberba, mas não passante).

alpinista.jpg

Na foto acima Jorge, preso na sua cadeirinha de alpinista feita de cordas aparafusando um dos caibros no “sol” central. O topo do poste está a mais ou menos 6m do chão. Veja o detalhe que os caibros ficarão apoiados no poste central, lado a lado.

Construir é dialogar, olhar, pensar, avaliar, escolher o que se quer, como se quer! Quando se coloca uma obra nas mãos de uma empresa, sim, se tem a obra rápida, mas as escolhas cotidianas, detalhes, possibilidades nos fogem das nossas mãos! Fazer esta casa tem sido a experiência do prazer de fazer a cada dia- ainda que lentamente. Olhar cada parede e saber o que se pensou, o que se queria… É uma escolha de VIVER a sua obra, antes de ir morar! Outra opção, outros tempos! Podemos nos dar este gosto, este tempo… Que bom!

Na foto abaixo Jorge fazendo o encaixe do caibro sobre um dos pilares do octógono.

caibro-encaixe.jpg

Comentários desligados

Colocando um pilar

Neste sistema construtivo tivemos que decidir sobre como seria a estrutura da casa, isto é, pilares ou paredes estruturais?

Quando se trabalha com tijolos, cozidos ou de adobe, os próprios tijolos costurados formam a estrutura da casa, amarrando-se no alicerce e numa viga ao final antes do telhado.

Mas no caso da taipa socada a estrutura vem dos pilares, entre os quais se soca a terra. Decidir significa escolher, traz benefícios, responsabilidades, consequências. Decidir se os pilares:

  • Seriam roliços ou de vigas retangulares?
  • Será madeira tratada em autoclave ou não?
  • Vamos enterrá-los no chão ou colocálos sobre alicerces de pedra?

Bem, foram algumas boas conversas e muito, muito tempo pensando nos possíveis problemas e suas soluções…

Suzana vem de uma família que tem uma usina de tratamento de madeira, assim, não foi fácil abrir mão do paradigma “madeira eterna” para a madeira passível de bichos, cupins, brocas, etc… Mesmo alguns argumentos e contra argumentos como:

” A madeira autoclavada não composta, não se decompõe” “Mas você não quer que sua casa composte, você quer que ela dure…” Foram pano pra manga e muitas conversas!

Conversamos com pessoas que trabalham com madeira na região de São Pedro de Alcântara e verificamos que há pouca incidência de cupins na região. Também analisamos as árvore que tínhamos- Citriodora de mais de 30 anos, duro como ele só! Pesquisamos o processo e consequencias do uso de madeira autoclavada…Ainda fizemos uma reunião entre os parceiros de Yvy Porã e decidimos pela coerência: Madeira sem tratamento químico!

Bem, aí os problemas começam… Quem disser que ser coerente é simples… Não é não!

Madeira tratada se enterrariam os pilares e pronto. Tem-se todos os pontos fixos para subir a casa. Pilares crus: vamos enterrar e daqui há uns 20 anos ter um problema sem solução simples? Não, vamos colocá-los sobre alicerces. Bem, aí temos um “paliteiro” de vigas com 3,5m de altura apoiadas num ferrinho, sobre uma base de cocreto, para ir depois montando e socando as paredes!Que coisa instável!

Mas as soluções se criam! Na sequência de fotos abaixo a colocação de um dos pilares:

Foto 1: base com o ferrinho que “centraliza” o pilar sobre o alicerce e os arames que ficam ao lado do mesmo, dentro das paredes e vão amarrar o telhado. Na madeira é feito um furo para o encaixe.

furopilar.jpg

Foto 2- A união faz a força! Jorge, Cecília, Mariani e Suzana subindo o poste. Mariani fica na ponta para “guiar” o encaixe no alicerce.

subindopilar.jpg

Foto 3- Todos segurando o poste, momento de maior instabilidade, pois é um grande palito, pesado e instável! Jorge começa a pregar as madeiras formando um pé de galinha.

pilar-pregando.jpg

Foto 4- Marini e Jorge completando o trabalho, detalhe do “Pé de galinha” , trés madeiras se complementado uma apoiando cada lado.

jomarianipilar.jpg

Foto 5- O pilar colocado com as pedras no alicerce, o reboco dando o acabamento.

pilarfim.jpg

Comentários desligados

Inserindo-se na comunidade

A opção de construir um espaço coletivo, ou uma eco-vila em muitos momentos cai na ilusão de uma “ilha entre iguais”, todos com modos de agir e pensar no mínimo muito semelhante.Mas até que ponto isto é real? até que ponto este “ideal” não está idealizado demais? Até que ponto é possível, desejável, éticamente correto se chegar nos lugares achando que temos a “verdade para salvar o planeta”? E as pessoas que estão ali, o que sentem? O que pensam? O que vivem? O que sabem? O que acham elas de tudo isso?

Este tem sido mais um desafio vivido por nós em Yvy Porã: chegar a São Pedro de Alcântara e ir-nos inserindo nesta comunidade, ouvindo mais, falando menos e devagarinho mostrando que fazemos coisas estranhas…

spapra.jpg

Foto da praça de São Pedro de Alcântara

Ouvir é fundamental…

Do prefeito Ernei ouvimos uma vez: ” os sitiantes vem aqui, não compram nada na cidade, pois trazem tudo de Florianópolis e deixam o seu lixo”… Puxa, que verdade! A partir daí não deixamos mais o lixo ali e passamos a comprar coisas na comunidade, como materiais de construção, manteiga do vizinho, queijo, e a contratar o pessoal local para qualquer tarefa necessária.

Depois, recebendo a visita da família do José Eugênio, passeamos e mostramos o que fazíamos, as frutíferas plantadas ouvimos “Nossa, vocês não vem aqui só para dormir, vocês trabalham!”… Outra visão do sitiante que nem imaginávamos existir e que íamos deitando por terra!

Neste final de semana, como o tempo constinuasse chuvoso e trabalhar em Yvy estava impossível, fomos à festa de Santa Filomena- bairro de São Pedro de Alcântara onde se localiza Yvy Porã. Na festa haviam umas 350 pessoas, com churrasco, galinha recheada, leilão de bolos para ajudar a paróquia, etc. Fomos recebidos pelos conhecidos com um entrusiamos e uma festa incomum! E neste clima de acolhimento fui apresentada pela D. Herna, esposa do Seu Walmor, como “minha futura vizinha”… Vejam que estamos lá há 4 anos, e apenas agora, quando passamos a interagir como pessoas do local, somos reconhecidos como “futuro vizinho”… Ou seja, alguém que vem morar aqui!

Bom, isto alimenta e se encaixa na recorrente discussão em listas e fóruns de permacultura com a questão de como levar a permacultura às comunidades, como fazer para que a permacultura seja democrática e chegue a quem precisa? O termo “desenvolvimento endógeno” vem do processo de desenvolvimento de dentro… Quer dizer, sai do modelito “veja, eu tenho algo a propor a esta comunidade, pois afinal eu sou o permacultor que estudou e sei o que é desenvolvimento e como se faz” e propõe um diálogo/ vivência:
- O que esta comunidade quer?
- O que VOCÊS acham que precisam?
Isto é difícil!
Primeiro por que os profissionais ( nós, urbanos) achamos nossa cultura melhor que a dos outros, temos uma IMENSA dificuldade em ouvir, outra maior ainda em admitir que nossas idéias não são as melhores! Poucas vezes conseguimos admitir facilmente que não somos fundamentais e poucas vezes sabemos ver a sabedoria local…

Aí as lições vem de pessoas especiais! David Holmgren (co-fundador da Permacultura) contou uma história SUPER ilustrativa do que é estar num espaço e dele fazer parte…Construindo a ecovila na VIDA…

Na foto abaixo a familia de David e Su, com o filho Oliver.

david-family.jpg
Ele e Su, escolheram viver numa cidade de 20000 habitantes, a maioria na área rural e lá estão. Melliodora, seu sítio, está ao lado de uma parque da cidade e já há mais de 15 anos ele e um vizinho cuidam das águas deste parque. David conta que este vizinho não tem posturas políticas e pessoais em nada parecidas com ele, mas que ambos, embora diferentes, trabalham há anos ali, cuidando do espaço. Recentemente o tal vizinho “descobriu” que David era alguém importante, com livros escritos sobre “alguma coisa chamada permacultura”- ou seja, descobriu que seu parceiro no parque era famoso… E perguntou ao David o que era isso? E ele respondeu “nada não, é isso que a gente vem fazendo juntos há 15 anos”… E seguiram assim…Sem alarde, sem foguetes, sem um Ego feliz por ter sido reconhecido…
Quer dizer, escolher estar numa cidade e viver, conversar, negociar, trabalhar com seus iguais, ainda que pensem diferente é construir a sustentabilidade, deixando de ser EGOlogista, e sendo pessoa!

Uma possibilidade de se fazer ecovilas é ir morar em pequenas cidades, estar ali, relacionar-se com o local e VIVER BEM! Respeitando cada um destes espaços, as pessoas e fazendo diferença pelo modelo e não pelo discurso!

Comentários (1)

Yvy Porã de plantar, de pensar, de agir

Seguindo nos Relatos dos caminhantes, aqui fica registrado a visita do Révero, em julho de 2007. Ele é  parceiro do PRONERA, educador, ator teatral. Foi uma surpresa sua vontade em ir para Yvy Porã, e mais agradável ainda foi viver o seu ânimo nestes 4 dias de trabalho.

Ao pedir seu relato, ele me devolve dizendo que a escrita não é seu forte, mas acaba nos brindando com este leve e delicioso texto.

Na foto abaixo Révero com as primeiras fôrmas da “sua parede”- a mais linda e caprichada! No primeiro dia ele e Jorge fizeram algum alicerce e colocaram as madeiras da porta de entrada…

im004054.jpg

Estar em Yvy Porã foi a concretização de uma vontade que tenho desde quando conheci a permacultura como possibilidade de vida. Foi praticar, sentir, por a mão na terra, andar no barro e se divertir… As conversas na cozinha, a amizade da Suzana e do Jorge faz sentir-se em família, como amigos de muitas estradas.

A construção da casa é um exemplo de como é possível quebrar com a lógica das grandes indústrias, do lucro, da exploração, da propaganda do desenvolvimento (que ao mesmo tempo nos afasta cada vez mais da humanidade…). Lembrei do apagão quando ficamos 3 dias sem energia elétrica em Floripa e com mais convívio humano. Não negar as tecnologias e avanços da sociedade, mas utilizar de forma racional e consciente. Um diretor de teatro chamado Grotovsky propôs o teatro pobre, ritualizado, onde cada elemento deve ser realmente necessário. A permacultura também me aponta este caminho. Ao socar a terra boa, dizemos sim! E tem um som metálico, forte, profundo… ritualizado também.

A volta para a cidade causa um estranhamento interessante e revelador. A idéia de ter uma vida diferenciada, em espaços mais saudáveis e naturais é confrontada com o cotidiano, com o aqui e o agora. Estes dias me animaram e realimentaram o sonho de transformação e de um ideal socialista e solidário. Yvy Porã além de Terra Boa é um fruto doce que dá vontade de compartilhar.

Deixe um comentário

Casa, planejamento, materiais, etc.

Muitas vezes nos perguntam sobre esta ou aquela técnica de construção. Qual a melhor?

Bem, fazer uma casa passa por vários pontos:

- quem são as pessoas que vão morar ali?

- quais os seus desejos e suas necessidades?

- qual o local e o que ele oferece?

- quem vai fazer esta casa?

Nossa casa na montanha teve no mínimo uns 12 projetos, muitos deles antes mesmo de ter a terra! E depois de escolher o local, pelo menos 3 desenhos.

Decidir os materiais e o sitema construitivo é outro trabalho de observação. O que o local me oferece? Nossa vizinha, D. Verônica, poderia construir facilmente com pedras, pois seu pasto tem muitos locais cheios de afloramentos de grandes seixos. Pedro Marcos e Elusa, permacultores de São José de Cerrito, fizeram a reforma da sua casa e construiram metade com super adobe (com a terra vinda da bacia de evapo-transpiração, e a parte de cima com fardos de palha, do arroz colhido nos anos anteriores e enfardado por eles…).

Bem decidir “como e com quê” vou fazer a minha casa é o trabalho do João de Barro, ou dos canários, que fazem o ninho com os materiais que encontram… Em seguida a escolher o material, vem a decisão sobre qual o sistema construtivo…Se escolho uma determinada técnica para fazer minha moradia, seja de cob, taipa, super adobe, pedras, ou fardos de palha, antes de olhar o que o local oferece é como comprar vacas de leite antes de ter um local para elas e como alimentá-las! É o famoso colocar o carro na frente dos bois!

Algumas técnicas, usando diferentes materiais, às vezes caem na graça da mídia, e ai, se torna “a receita”, ou seja, novamente a técnica acima da compreensão e da concepção sobre o que é o ecológico ( eco = casa e lógica = lógica) … Ecologia é observar, interagir, acatar e criar com o que o meio me oferece, não comprometendo gerações futuras.

Em Yvy não temos pedras, temos madeiras, sim, muitas, pois são 72 hectares de mata, e terra, sim, o solo…Para usar apenas madeira teríamos que cortar muitas árvores. Isto não nos agradava muito! Ainda que num manejo correto, isto seja possível.

Nossa opção, depois de viver por quase 3 anos o espaço, observar as estações, o frio, o quente, os ventos etc, foi pela construção com terra e ao sistema escolhido foi a taipa socada com pilares feitos com os eucaliptos locais. Esta escolha levou em conta o conforto térmico, o fato de ser uma técnica simples e de certa maneira leve, e também os nossos tempos para fazê-la! Como temos um solo argiloso e muita umidade, também optamos por fazer os alicerces de pedra, para isolar melhor as paredes do solo.

Escolhidos os materiais e o sitema construtivo, vamos fazer contas! Aqui não são de custos, mas de quantidade de terra. Como se calcula quanta terra vai numa construção?

Comprimento x altura x espessura das paredes.

Mas cuidado ( dica de professora de matemática): transforme todos os dados em uma única unidade ( o metro) antes de fazer as contas! Quer dizer, a espessura, se é de uma parede de 30cm, deverá entrar na contas na unidade metro, ou seja, 0,30m…

Assim calculamos quanta terra iria na nossa casa:

30 metros lineraes de paredes x 2,10m de altura x 0,15m de espessura nos dá aproximadamente 9,5 metros cúbicos de parede. Como assim metro de parede? A taipa trabalha compactando a terra quando ela é socada, assim, ela diminui o volume “original” e apiloada dentro da forma adquire a rigidês estrutural. Então para fazer as paredes devemos ter o dobro de volume de terra porque vamos compactá-la para estabilizar a argila. Então precisamos de uns 20 m³.

E esta terra vem de onde? Tirar isto cavando um buraco, daria uma piscina de 5 x4 m e um metro de profundidade. Mas… não pretendíamos fazer uma piscina!

Uma casa já é um impacto num terreno, então fizemos a escolha por um impacto inicial maior, fazendo um certo movimento de terra para separar este material para as paredes. Assim decidimos “cortar o cucuruto do morro”, e esta foi a única entrada de máquina no terreno. Este trabalho acabou tirando mais terra do que os 20m³ previstos, o que não foi um problema, já que temos no design planejado a construção de uma oficina, ao lado da casa, que também será construída com terra, talvez pau-a-pique…

Na foto abaixo o terreno em seguida à entrada da máquina. O monte à direita é um dos dois montes de terra separados para a obra. O solo superficial, mais rico, foi separado em outro monte para ser usado posteriormente, em canteiros.

terra.jpg

Bem, muitos perguntam pelo uso do super adobe, parece que esta técnica, graças os Globo Repórter sobre construções ecológicas, caiu na moda da mídia, e muitos “descobriram” que se pode construir com terra! Que bom abrir novos horizontes, mas que ruim cairmos no mito da técnica pela técnica! Nesta construção o volume de terra é muito maior, pois a largura é dada pelo tamanho do saco usado, que fica entre 45 ou 60cm de largura! É uma construção sólida, sem dúvida, mas pesada de ser feita e que usa muita terra! Na nossa casa usando este sistema o volume seria facilmente multiplicado por 3 ou 4, ou seja, estaríamos entre entre 60m³ ou 80m³ de terra… é terra, heim!

Sistemas construtivos com terra existem muitos: adobe, cob, taipa socada, pau-a-pique, tijolos de solo cimento…

A escolha é que deve ser uma ação complexa, e usando Basaarab Nicolescu, no “Manifesto da transdiciplinariedade” a complexidade exige “amplitude, tolerância e rigor”.

Amplitude para olhar o entorno e pensar soluções corretas e adequadas.

Tolerância para poder fazer concessões quando estas sejam possíveis e sem consequências para as gerações futuras.

Rigor, para saber recusar, dizer não, ainda que isto nos ponha a ter que decidir e começar planejar tudo de novo!

Se usarmos estes critérios para pensar, planejar e construir nossas moradas ecológicas, estaremos num bom caminho!

Comentários (2)

Posts mais antigos »