Arquivo para Junho, 2007

Iniciando as paredes

Desde muito antes de começarmos o projeto da casa havíamos decidido que nossa casa seria de taipa socada. Esta opção foi tomada considerando-se muitos fatores:

  • é um material ecológico e disponível no local
  • permite que a experiência de construir seja replicada por outras pessoas
  • tem bom isolamento térmico e acústico
  • tem o sabor de algo “feito à mão”.

É importante saber qual o solo que cada um tem… O teste da garrafa Pet é sempre uma boa prova para se iniciar a observação do que se tem e o que se deve fazer! Lembrando-se de que é uma construção orgânica, quer dizer, com complexidade, movimento, vida. O seu solo pode mudar dependendo do local, profundidade, etc.

O teste do solo pode ser feito numa garrafa Pet, onde se coloca um terço dela do solo que será usado, preenche-se de água, mistura-se bem agitando a garrafa e espera-se decantar. A granulometria é clara: areia no fundo, argila mais fina em cima. Nosso solo apresentou em vários testes 60% de argila e 40% de areia.

Abaixo a foto de um dos nossas testes.

teste.jpg

Assim, começamos as paredes! Jorge fez a forma de 1,5m de comprimento por 0,6m de altura. Alguns sarrafos de madeira reforçam a estrutura, para que ao socar a terra a forma não abra, ou forme barrigas.

Esta forma é presa na parte de baixo por 3 parafusos que passam de lado a lado e travados com porcas e arruelas. Na parte de cima por 3 sargentos, que seguram a forma para que ela não se abra.

Assim, vai se socando a terra, e quando se enche a forma, retiram-se os parafusos, os sargentos, e a forma. A parte de baixo está pronta, pode-se assim, subir a forma para a próxima camada. Alguns detalhes simples que permitem esta operação:

  • dentro da forma, passar os parafusos por dentro de um canudinho de bambu, pois se não, ao socar a terra ela prenderá os parafusos e não será possível retirá-los.
  • prender sempre a forma na parede que foi feita anteriormente, se for acima irá ficar uma camada sem compactação.
  • compactar devagar. As camadas muito grossas de terra compactam apenas a parte de cima, a de baixo fica sem compactação e isto compromete a estrutura da parede

Na foto abaixo estes detalhes da forma, vejam os canudos de bambu por onde passam os parafusos.

forma.jpg

Um dos segredos das construções com terra é a proporção de argila x areia que deve ser seguida sempre: 40%argila, 60% de areia, isto consta de todos os manuais, livros, etc de construções com terra.
Com o desejo de simplificar o processo e de acelerar a obra experimentamos fazer as primeiras fileiras com o solo peneirado direto, isto é, mantendo a proporção natural do mesmo. Era a parede sul, que ficará atrás de um armário, possivelmente, quer dizer, um excelente espaço para testes! Como temos muita argila, abriram imensas rachaduras. Argila demais se contrai, ao se contrair separa dos pilares mais do que o desejável, e abre fendas – proporcionais ao tamanho da parede. Se a parte socada for pequena, racha menos, se for maior, racha mais…

Se houver areia demais a parede cai… Conta uma história real, que uma parede feita num assentamento do MST ao ser socada cada fileirinha, a de baixo caia, e caia, e caia… Os agricultores diziam que algo estava errado, mas o profissional afirmava, teimosamente, que não, que era assim mesmo… Resultado- o profissional virou as costas e os assentados demoliram as paredes que ameaçavam cair sobre alguém… Um destes agricultores, num curso PDC, ao ver uma parede bem feita e ao ouvir a explicação da proporção argila areia sorriu e disse “Claro, nosso solo é muito arenoso, por isso as paredes caiam…”.

Ao ser socada o solo argiloso fica realmente lindo, parece uma parede sólida, firme, linda! Mas ao secar é que acontece a contração… Ela se separaou demais dos pilares e rachou muito…

Resumindo, a vontade de ter menos trabalho, causou trabalho em dobro, pois tivemos que cobrir as rachaduras depois, usando barro, areia e cal, que estabiliza a argila.

Mas como tudo é experiência e quem pensa sobre seus erros cresce e aprende, conseguimos chegar à mistura ideal para o nosso solo:

40% de argila – 2 baldes de terra peneirada

60% de areia – 1 balde de areia média

10% deste total de cal – 1/3 de balde

Uma dica importante é misturar primeiro as partes secas (areia e cal), depois a terra e finalmente colocar a água para dar a consistência ideal para socar , nem muito seca, nem muito molhada. Este ponto é absolutamente empírico, ou tátil: a melhor prova é pagar um punhado na mão e apertar, em seguida balançar este bolinho segurando apenas com polegar e indicador. Ele deve estar firme e não quebrar muito facilmente.

Como vamos vendo e aprendendo, o caminho se faz ao caminhar! Muitos passo, alguns erros, outros tantos acertos.

Tem sido uma fantástica experiência esta de fazer a casa com as mãos, num tempo nosso, num rítmo nosso. É uma obra absolutamente própria, com personalidade… Eu sei, Jorge sabe, cada coisa como é feita, por que é feita, que tempo leva, a energia que gasta.

Sim, sim, nossa casa vai saindo do chão! E o mais delicioso é saber que “nós sabemos fazer isto, fomos nós que fizemos, com essas mãos”.

Na foto abaixo as primeiras filas de parede socada em fevereiro de 2007.

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Alicerces e estrutura

A casa na montanha tem a forma de um octógono expandido nos lados leste e oeste. É um loft, com um banheiro e uma lavanderia. Nossa proposta é fazer a casa com nossas mãos, dentro da energia e tempo que dispomos e usar ao máximo os materiais locais. Assim as paredes são de terra, os pilares de madeira local (eucalipto citriodora), etc.

alicerces.jpg

Para os alicerces, nas sapatas e vigas usamos tiras de bambu fazendo a mesma função que o ferro faria, amarrando a casa- o chamado bambucreto. Sobre elas fizemos uma camada de pedras, cabeços, uma material comum na região, e que foi comprado. Estes cabeços atuarão como isolantes, e sobre eles vem as paredes de taipa socada.

Na foto abaixo, Jorge e Cecília verificando nossos alicerces, pode-se ver os bambus dentro das sapatas e nos pilares.

joceciliaalicerce.jpg

Os pilares são de eucalipto- tínhamos eucalipto citriodora com mais de 30 anos na propriedade, que foram cortados e parte feitas tábuas e vigas e parte deixados roliços para serem usados em pilares.

Discutimos muito se os pilares seriam enterrados, ou não… Enterrar daria uma grande estabilidade para ir levantando as paredes… Mas por outro lado, teríamos a “ameaça” desta madeira apodrecer (em 10, 15 ou 20 anos?)… Pensamos que ai então estaríamos muito velhinhos para trocar pilares, ou então seríamos “chingados” pelos filhos por deixarmos um problema… Decidimos assim, que apenas o pilar central seria enterrado, já que fica no centro da casa, num local mais resguardado de infiltrações e, caso ocorra algum problema, é o mais fácil de solucionar (uma mão francesa resolve!).

tade.jpg

Na foto acima Tade, Jorge André e Jorge dando o prumo ao pilar central da casa, enterrado 1m +10% da altura (preciosa dica do Zé Carlos, parceiro de Yvy e engenheiro com anos de experiência na construção de linhas de eletrificação).

Assim, os pilares estão apoiados em um ferro, concretado no alicerce e ficam no meio das camadas de pedra ( acima da primeira).

Esta foto foi em fevereiro de 2007 – pois nosso final de 2006 foi muito atribulado, com algumas pedras de outras espécies no caminho…Assim, nossa obra retomou o ritmo mesmo a partir do verão de 2007.

Nela trabalhamos nós, Jorge e Suzana, Cecilia Lenzi, nossa amiga, jovem permacultora, arquiteta de plantão. A proposta é que Cecília faça um relato técnico sobre o sistema construtivo que estamos aprendendo, para que outras pessoas possam se apropriar desta experiência, como exemplo de coisas possíveis de serem feitas com os mínimos recursos e apenas o nosso tempo!

Outros amigos e voluntários aparecem para aprender fazendo! Nesta etapa nossos parceiros foram, em especial o Tadê, Jorge André e Marco Aurélio.

pilar.jpg

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Localizando a casa

Em 2006 localizamos a casa no terreno e fizemos a medição das curvas de nível de onde seria feito o corte no terreno. Nossa casa é um local onde “descansa um dragão”, no alto do morro, com a mata ao sul e oeste, e tendo o norte e leste abertos para a vista.

Aproveitamos a vinda da máquina que iria colocar manilhas na estrada e decidimos fazer o corte no terreno. Neste momento, Jorge e Mariani estiveram juntos o tempo todo para que o tratorista fizesse o corte, absolutamente onde fosse necessário.

Este corte tinha vários objetivos:

  • resgatar o solo bom para futuros canteiros,
  • separar a terra para nossas paredes de taipa socada
  • deixar plano o terreno da casa.

Houve uma boa discussão sobre o uso de máquina ou fazer este corte a mão, e acabamos aproveitando a oportunidade, já que pelos nossos cálculos precisaríamos de uns 10m³ de terra.

Na foto abaixo, Mariani, parceiro de Yvy Porã, acompanha o trabalho da retro. Pode-se observar ao lado os bambuzinhos marcando as curvas de nível onde será feito o corte.

trator.jpg

Cálculos servem de base… Mas a realidade sempre muda um pouco…O movimento da terra acabou fazendo dois morros, cada um de aproximadamente 9m³- um tanto de terra a mais…

Na foto abaixo estamos localizando o gabarito da casa. Eu estou no centro da casa e à esquerda pode-se ver, parcialmente, um dos dois montes de terra separados para fazer as paredes.gabarito.jpg

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