Arquivo para Junho, 2007

O projeto

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Uma das perguntas que me fazem é “E a planta da casa?”.

Bom, este é um projeto que andou, amadureceu muito… Desenhamos, rabiscamos, fizemos mil plantas, até chegarmos à simplicidade da cabana que estamos fazendo.

Estamos na fase da vida que a casa diminui, pois as filhas saem de casa, alçam seus voos. Então, aparece a simplicidade e o singelo, de viver a dois, num espaço gostoso, cômodo, nosso!

O que é desejo: uma bela cama, uma grande cozinha, pois a vida se dá ao redor do alimento, um banheiro com um bom banho e um cantinho para o computador… Ah, e uma varanda é essencial para estar com os amigos numa tarde de sol…

E assim é nossa casa. O projeto é de um ambiente todo integrado, sala, cozinha e quarto, o octógono de 4m de raio. Para um lado puxamos a varanda. Para o outro aparece o reservado do banheiro ( seco, obviamente), com o box dando para a mata, medindo 2×3m. Ele cria os dois “cantos” trapézios, que formam o escritório de um lado, e a lavanderia do outro- para não entrar com botas sujas em casa.

O projeto acima foi feito nas férias forçadas do Jorge, usando um programa chamado sketchup. Aquelas coisas de computador, que se pode entrar, caminhar, etc…

Salvei este ângulo, a face norte, onde se chega na casa, para que se possa ter uma idéia da “cara da casa”… Logo que eu procurarei salvar a planta baixa como JPEG e coloco no blog.

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Cecília e Yvy Porã

 

Ao iniciarmos a nossa obra, uma das nossas muitas propostas era abrir a experiência para outras pessoas… Não apenas que se visse uma casa pronta e ouvisse o relato de como foi feita!

Jorge e eu não nos animamos a fazer registros detalhados da obra, nem sair publicando relatos, experiências, participando de grandes eventos, etc… Já passamos desta idade! Mas achamos que é uma possibilidade que poderia ser compartilhada! Que outros, moçada mais nova, poderiam se apropriar do processo.

Assim, Cecília entra nesta história, muito além de ser uma pessoa querida, ex-aluna minha, amiga da minha filha na adolescência, filha de outra grande parceira, etc! Uma jovem estudante de arquitetura, insatisfeita algumas perspectivas profissionais e que está buscando caminhos para a sua vida. Na busca por caminhos, ela achou a permacultura e nos buscou, em especial ao Jorge, para conversas, assessorias de alguns trabalhos, diálos sempre longos, muitas idéias, prancheta na mão… Esta busca deu o gancho para a proposta feita, e que foi assim mesmo:

“Ciça, queres te apropriar deste projeto, ir registrando, acompanhando, e até usar isto para trabalhos, publicações, etc… Tá ai! Vamos juntos e o “projeto é seu”.”

Ela se animou, e tem sido uma parceirona- faz plantas, desenhos técnicos, põe a mão na massa, faz concreto, assenta pedras, mediu níveis, soca terra… Também e vem organizando o material entre o que vivemos na obra e um relato técnico. Neste aspecto trabalha o arquitetônico e também fotográfico! Cada ida dela para Yvy são umas 100 fotos por dia, e muitas fotos postadas aqui são de sua autoria!

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Na foto acima, Cecília e Jorge fazendo a massa para os alicerces em dezembro de 2006!

Bem, esta parceria está dando o seu primeiro fruto…

A Casa da montanha de Yvy Porã irá participar do II ELECS – Encontro Latino-americano sobre Edificações e Comunidades Sustentáveis (www.elecs2007.com) –, que este ano será sediado na cidade de Campo Grande – Mato Grosso do Sul, de 12 a 14 de novembro.

Os objetivos do evento estão definidos como “reunir e expor práticas e pesquisas em andamento, discutir a aplicação dos conceitos relacionados à sustentabilidade e agregar cada vez mais dados que auxiliem na construção de edificações, comunidades rurais e urbanas mais sustentáveis”.

As reflexões e registros sobre a mais nova casa de Yvy Porã, com autoria de Cecília Lenzi e Jorge Timmermann, estarão expostas no eixo denominado Permacultura, e irão trazer para discussão as estratégias e técnicas que estão sendo utilizadas na construção. Nosso objetivo é trocar idéias, receber críticas, conhecer outras experiências e com isso cada vez aprender mais!

Os pés seguem na terra mas os olhos estão adiante…

 

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Terceira parede

Maio se foi, foi um lindo mês, com um frio danado, mas com cores no céu e nas plantas que sempre nos surpreendem e encantam.

Maio também trouxe uma nova rotina para nós, mais tempo em Yvy Porã. Nesta época a grama, os pastos, o verde, muda de cor, e não cresce tão rapidamente- o que faz “sobrar” tempo para outras atividades, além de cortar grama, manter os caminhos roçados e as frutíferas sem pasto abafando-as.

Neste início de junho, Jorge dedicou-se bastante à nossa obra, e as paredes cresceram! Claro que vamos aprendendo, pegando as manhas, e agilizando procedimentos que no início eram todo um mistério!

É engraçado lembrar de conversas e dilemas sobre como colocar a primeira forma, como começar a socar? Há frestas entre o alicerce a forma…o que fazer?

Agora outros dilemas aparecem, e sabemos que iremos solucioná-los da mesma maneira- vivendo cada dia com a sua preocupação e a sua solução!

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Nesta etapa, estamos na terceira parede, que tem uma imensa janela para a varanda. Nos deparamos com alguns problemas e suas soluções:

  • formas pequenas de uma tábua apenas, ajudam o trabalho individual, e vão super bem nas paredes laterais às aberturas.
  • nesta forma é preciso socar com menos quantidade de terra, senão não compacta bem.
  • caprichar na mistura terra+areia+cal é fundamental, se ela fica pouco homogênea também compromete a compactação.
  • observe sempre ( isto é um dos princípios da permacultura propostos pelo David Holmgren), pois o seu solo pode mudar um pouco, ai equilibre a mistura na proporção já falada anteriormente.
  • formas pequenas podem rachar… Esteja preparado para trocas, pois uma trinca faz com que barrigas apareçam na sua parede. Sim, é incrível, mas é verdade!

terrasu.jpgNa foto acima, Suzana fazendo a mistura para a parede.

Como estamos trabalhando com pilares que vão sendo “amarrados” às paredes, e temos um poste fixo, colocado no chão no meio da obra, temos estas tábuas, fixando cada pilar à medida que vamos levantando as paredes. São como raios de uma roda de bicicleta dando estabilidade ao conjunto. Às vezes são nosso apoio, para colocar escadas, andaimes, tábuas, etc. Outras vezes nosso incômodo, principamente para “pequenos” como Jorge, que podem bater a cabeça nos raios que ficam mais baixos…

Nosso pilões para socar são 3, um maior, que faz o trabalho pesado, e este deve sempre estar forrado com plástico preto, para que a terra não grude embaixo. Com este forro fica absolutamente nivelada a terra ao ser socada. Os outros dois são caibros menores, cortados a 45° para poder socar nos cantos e nas bordas. Socar bem é outro segredo, ainda queo cansaço do dia seja forte, ainda que seja mais devagar… Calma- soque bem, vale a pena!

E assim seguimos, numa semana do Jorge trabalhando sozinho e nós dois juntos na sexta e sábado, terminamos a terceira parede da casa, colocando o travessão da janela da varanda e socando os lados até 2,1m.

Agora junho terá um espaço de poucas atividades, pois teremos cursos em Curitiba e depois em Botucatu, além de outras atividades! Mas saimos com esta bela foto com as luzes do por do sol, e um frio que chegou sem aviso no final da tarde.

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Finalmente…paredes lindas!

No mês de abril e maio nossa rotina de ida a Yvy foi quebrada. Tivemos o curso com David Holmgren, co-fundador da Permacultura, que esteve em Floripa. O curso foi importante, e os dez dias de convivência com David e Susan, sua companheira, foram realmente especiais.

Na foto abaixo, David, Jorge e Suzana na nossa casa em Floripa.

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Este casal montou uma unidade familiar de permacultura chamada Melliodora (na Austrália) e conviver com eles, discutir, respirar, compartilhar experiências em permacultura foi importante. (ver site do David no blogroll).

Jorge e eu nos sentimos profundamente tocados, incentivados a cada vez mais criar o espaço de Yvy Porã, tanto o nosso, pessoal, como o espaço de acolher pessoas.

Depois desta vivência, Jorge decidiu que, nos tempos onde não estivesse dando cursos, estaria mais tempo em Yvy Porã, seguindo a construção da casa. E assim tem sido, o que deu uma acelerada na nossa obra! Também tivemos a ajuda do Rodrigo, nosso samurai do Pronera, sempre bem humorado e disposto a aprender, do Luiz, estudante da 25 de maio, a Carolzinha, prof. de ciências, o Mariani e a Bel, parceiros de Yvy Porã- pessoas queridas e amigos especiais!

Ao subir as paredes fomos nos dando conta de que socar acima de 2m fica muito incômodo, pesado, a pessoa que soca fica numa posição instável, etc. Já havíamos conversado sobre a possibilidade de usar taipa apenas até a altura das portas e janelas 2,1m e depois fechar com outros materiais, como vidro, madeira, pau-a-pique, etc. Assim, quando realmente chegamos aos 2,1m esta possibilidade virou opção!

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Na foto acima Jorge socando a parede ao lado da janela da varanda a 1,90 do chão! Neste ponto ainda há a possibilidade de colocar o pé como apoio na forma. No próximo nível, isto fica inviabilizado, e a instabilidade cresce ainda mais!

Quer dizer, as paredes de taipa sobem até a altura das aberturas. Ai receberão uma vida de madeira e daí para cima, fechamentos alternativos.

Na foto abaixo a nossa primeira parede com a abertura da janela da cozinha.

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As paredes ficam protegidas por lona plástica, para que não recebam chuva, pois ainda não foram rebocadas e também não temos o teto. Asssim a secagem é lenta, na foto acima percebe-se pela cor o tempo de feitas. As mais claras, nesta foto, tem 6 semanas de feitas. (foto final de maio de 2007).

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Paredes subindo…

Misturar areia, cal e barro, socar paredes… Uma rotina e tanto!

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Na foto acima Jorge iniciando a segunda parede. No pilar pode-se ver os arames farpados da amarração.

Aos poucos vamos pegando a manha, e o sabor de cada pedaço que sobe e vai dando formas à casa… A sensação disto é indescritível.

A terra deve ser socada, para que os grumos ou “pedras” de barro não atrapalhem a compactação dentro da forma. Assim, fizemos uma grande peneira, com tela de galinheiro, e vamos desfazendo os grandes morros de terra passando-a pela peneira. As bolotas que sobram serão usadas para dar o nível do piso da construção, e a terra peneirada vai para as paredes.

Na foto abaixo Suzana peneirando a terra.

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A msitura é um dos grandes segredos da taipa socada, segredos que se descobrem ao fazer a casa. Misturar bem, ainda que os braços se cansem, é sinônimo de parede uniforme.

A primeira parede, onde ousamos, experimentamos e erramos foi fundamental. Na segunda, aprendendo sobre as experiências feitas, analisando os erros e revendo os caminhos, a coisa vai andando muito rapidamente!

Os lados do octógono tem 3,15m. Na primeira parede, única sem nenhuma abertura, nem porta, nem janela, colocamos um pilar de medeira de 15cm por 5 no meio. Isto facilita muito o socar a terra.

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Nas outras estes pilares não roliços, já fazem o marco das abertura, ou seja, são os batentes das portas ou das janelas, e cada parede acaba tendo 3 partes. Fica uma casa meio enchamel…

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Nesta foto Jorge, Suzana e Rodrigo colocando o pilar que divide a segunda parede em 3 partes, pois teremos a janela no meio.

As aberturas serão feitas pelo Jorge na própria obra, fora a porta de entrada, que compramos numa demolição, e uma veneziana que uma amiga ia jogar fora e nós pegamos!

Nesta foto a parede antiga, com suas trincas e erros, e a parede com o teste da mistura “boa”, descrita na postagem anterior. ( foto de março de 2007)

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Amarração das paredes

Mas, as paredes ficam de pé? Elas não caem? Elas ficam assim, soltas? Estas são perguntas frequentes quando se fala em construções com terra.

O encontro ou junções de materiais distintos, como madeira e tijolos, madeira e terra, nunca é simples, pois estes materiais tem dilatação e trabalham de maneiras diferentes. Então, mesmo se você for fazer uma casa de tijolos, com estrutura e pilares de madeira, acostume-se a ter uma dilatação, uma trinca entre estes materiais.

Bem, mas e a nossa casa, como fica em pé?

Os pilares:

amarrados nos baldrames do alicerce. Dalí saem dois tirantes que fixarão as vigas do madeiramento do telhado. Quer dizer, o telhado estrá ancorado no chão. Estes tirantes ficam dentro das paredes de terra, rentes aos pilares.

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As paredes:

a cada 0,5m há um arame farpado que passa dentro das paredes e através dos pilares (por um furo nos mesmos). Isto é uma cinta que amarra as parede de terra ao pilar de madeira. Esta cinta é pregada a cada tramo, na madeira, para o caso de uma romper, não solta todas.

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Na foto abaixo detalhe dos pilares onde se vê os arames farpados que vem amarrando as paredes.

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Assim, quando se constrói com tijolos as paredes são amarradas pelos próprios tijolos, ou num modelo igual a este, com pilares e panos, cada parede seria amarradas com barrinhas de ferro que prenderiam as paredes aos pilares. Nas paredes da casa de taipa são amarradas com fios de arame farpado a cada 50 cm em todo o seu perímetro.

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